São Paulo Off: tuas ideias [de urbanismo] não correspondem aos fatos

4 de agosto de 2026

Gerou bastante repercussão a crítica do escritor Marcelo Rubens Paiva ao atual processo de verticalização de São Paulo publicada na Folha. Assistindo ao vídeo em que o autor fala do artigo, acho que consegui identificar o condomínio em Perdizes de onde foi gravada a crítica. 

Caso a identificação esteja correta, existe uma evidente contradição em lamentar a destruição da cidade e a perda da paisagem paulistana a partir da varanda de um enclave que gera sérios problemas urbanos no entorno e, assim como os novos prédios, também bloqueia o horizonte dos vizinhos.

O condomínio em questão é o retrato do urbanismo “off” dos anos 1980 e 1990: torres isoladas em um vasto lote cercado por muros, configuração que prioriza a segurança interna, o lazer privativo e a privacidade dos moradores em detrimento da integração com a vida da rua.

A incoerência fica ainda mais evidente a partir do contraste com a vizinhança imediata, ainda dominada por sobrados, mas também com alguns prédios que são exemplos de boa arquitetura. A poucos metros dali, na esquina da Rua Paracuê com a Cayowaá, um predinho baixo sem recuos acolhe a vida de bairro com uma charmosa loja de brinquedos no térreo. Um pouco mais adiante, na Rua Herculano, o Edifício Jaraguá, projetado por Paulo Mendes da Rocha, ensina como a arquitetura em terreno inclinado pode dialogar com o entorno através de uma praça pública aberta e transparência urbana, em vez de erguer muralhas.

Quem mora em um enorme condomínio murado e reclama do direito à vista esquece que o seu próprio prédio, ao ser erguido, lançou sombra ao entorno e privou os vizinhos da paisagem, além de ter gerado monotonia e insegurança em suas calçadas. Reclamar da verticalização atual morando em um modelo que causa impactos negativos na vizinhança não é defender a cidade; é apenas exigir o privilégio do “primeiro a chegar”.

Não que a expansão imobiliária atual não mereça críticas. Claro que merece, conforme já escrevi no artigo “Subiu o prédio eu ouço vaia”. A cidade, porém, não é produzida apenas por incorporadores e prefeitos. Ela também é resultado das preferências de milhares de compradores.

Parte do problema de São Paulo, portanto, não é apenas quem constrói, mas também quem consome essa arquitetura defensiva e anti-cidade – especialmente quando quem vive nesse tipo de condomínio teve condições de escolher onde morar e, ainda assim, optou por um modelo que prejudica a cidade.

Antes de criticar os novos prédios, vale o exercício de “lugar de fala”: o que o condomínio onde você vive devolve para a cidade? Se a resposta for apenas um muro alto, você não é apenas vítima da desumanização da cidade — você também contribui para o modelo que causa essa desumanização.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Economista pela FEA-USP, mestre em economia pela EESP-FGV e tem mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas e estudos econômicos. Mora em São Paulo e caminhar pela cidade é um de seus hobbies favoritos ([email protected]).
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