Salas de aula vazias em um bairro, filas persistentes por creches no outro

30 de setembro de 2026

Em 2025, as matrículas na educação básica caíram em mais de um milhão. Mas isso não é evasão escolar. A frequência entre crianças de 6 a 14 anos chegou a 99,5%, uma das mais altas já registradas. A principal explicação é a redução da população infantil: entre 2022 e 2025, o número de crianças de 0 a 3 anos encolheu 8,4%. 

À primeira vista, isso soa como uma boa notícia para quem administra uma rede de ensino. Menos alunos, o mesmo número de prédios, mais espaço para todo mundo. Se os dados nacionais sugerem alívio, a situação das cidades conta outra história bem diferente. Ainda em 2025, 52% dos municípios informaram que não davam conta da procura por creche e as listas de espera somaram 826 mil pedidos. Sobra prédio em um bairro e falta vaga no outro.

Resolver esse descompasso exige planejamento da rede escolar, algo que poucas prefeituras fazem com antecedência. Planejar a rede é saber, com cinco ou dez anos de antecedência, onde será preciso abrir, ampliar, reformar ou mudar a finalidade de uma escola. Essas decisões não podem ser tomadas apenas a partir da escala do município. É preciso considerar bairros, quarteirões e até as conexões de transporte entre eles. A média municipal pode resumir uma realidade, mas é insuficiente para administrá-la. 

Escolas são equipamentos urbanos e precisam acompanhar as dinâmicas da cidade. Quando um conjunto habitacional fica pronto, a demanda chega junto com os caminhões de mudança. Em bairros mais antigos, pode acontecer o contrário: os filhos crescem, os moradores envelhecem e as salas de aula começam a esvaziar. Sem acompanhar essas transformações, a prefeitura acaba pagando duas contas ao mesmo tempo. De um lado, compra vagas na rede privada ou financia longos deslocamentos escolares. Do outro, mantém prédios públicos subutilizados e salas de aula vazias. 

O descompasso entre oferta e demanda também pode acabar nos tribunais. Em 2024, a Prefeitura do Rio de Janeiro foi condenada a pagar mais de R$ 2 bilhões por não ter zerado a fila de creches e pré-escolas. O desafio não está apenas em ampliar a oferta onde faltam vagas, mas também em administrar a capacidade ociosa onde a demanda diminui. Fechar escolas porque o número de matrículas caiu pode significar mais tempo de deslocamento para crianças e famílias e, em áreas rurais, aumentar o risco de evasão escolar. 

Algumas medidas relativamente simples podem reduzir esse descompasso:
• Projetar a demanda futura dos territórios, cruzando informações de registro de nascimento, Cadastro Único e matrícula escolar.
• Dar transparência à capacidade instalada da rede, divulgando quantas vagas cada escola tem e quantas estão efetivamente ocupadas.
• Reutilizar prédios ociosos antes de construir outros novos. Uma escola com salas disponíveis pode receber turmas de creche ou ampliar a oferta de educação em tempo integral.
• Incorporar as escolas ao planejamento urbano. A aprovação de novos empreendimentos habitacionais deveria considerar, desde o início, a demanda adicional por vagas educacionais.
• Coordenar o planejamento entre redes municipais e estaduais. Em uma mesma cidade, enquanto a prefeitura precisa abrir vagas para a educação infantil, a rede estadual pode estar perdendo alunos e dispondo de espaços subutilizados. 

Nada disso exige dados novos. O Censo Escolar já informa quantas salas existem em cada escola e quantos alunos estão nelas. O IBGE já projeta a população por faixa etária. As prefeituras já sabem onde as famílias moram. O desafio está menos na falta de informação e mais na capacidade de integrar essas informações, permitindo orientar essas decisões sobre onde expandir, adaptar ou redimensionar a rede escolar. 

As mudanças demográficas abriram uma oportunidade rara para o planejamento da rede escolar. Com menos alunos, é possível reduzir turmas, ampliar o tempo integral e utilizar melhor a infraestrutura existente sem expandir gastos. Mas isso exige coordenação, análise e planejamento de longo prazo. O caminho mais fácil é continuar reagindo aos problemas conforme aparecem. O mais difícil, e provavelmente o mais eficiente, é planejar a rede escolar para a cidade que está surgindo, e não para a cidade que já deixou de existir. 

Por Caio de Souza Castro, Marcos Paulo Rodrigues Correia e Hugo Villarinho Pereira de Carvalho, pesquisadores do eixo de Infraestrutura Social. Acesse o policy brief do FGV Cidades “Planejamento de rede escolar: importância, evidências e desenho de políticas”.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Fundado em 2023, o FGV Cidades: Centro de Inovação em Políticas Públicas Urbanas conta com uma equipe interdisciplinar de pesquisadores nas áreas de políticas públicas, economia, direito, arquitetura, engenharia e ciência de dados. Sua missão é reduzir as desigualdades de oportunidades espaciais por meio de pesquisas científicas bem como assessorando e capacitando diretamente os entes subnacionais brasileiros para avançarem em tecnologia, regulação e políticas públicas, contribuindo para a construção de cidades mais inclusivas, sustentáveis e prósperas.
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