Em 2015, uma polêmica tomou conta do meu bairro: a mudança do nome de um trecho da Rua Turiassu para Rua Palestra Itália. Para apoiadores, a medida representava uma justa homenagem ao centenário do Palmeiras (1914-2014) e ao seu nome de fundação, reforçando também a identidade cultural da região. Para opositores, a mudança desrespeitava a história do bairro ao apagar um nome tradicional naquele trecho, além de gerar dor de cabeça para comerciantes e moradores, que teriam de alterar documentos, cadastros, contas e registros. A maior reclamação (justíssima, por sinal) veio de um comerciante que havia acabado de imprimir milhares de panfletos de publicidade do seu estabelecimento com o endereço na Rua Turiaçu (a grafia correta de Turiassu, por sinal, é outra eterna polêmica do bairro).
Um ano depois, outra polêmica do tipo tomou conta do noticiário paulistano: a alteração do nome do Minhocão de Elevado Costa e Silva para Elevado João Goulart. “Ué, mas não chama Minhocão?”, brincou um amigo, reconhecendo, contudo, que a retirada de homenagens a personagens ligados à ditadura militar era mesmo necessária. “Pois eu acho que deveriam manter o nome”, defendeu outro, para lembrar todo mundo que foi a ditadura a responsável por esse monstrengo que destruiu praças lindas e degradou uma das áreas mais charmosas da cidade. “Dar nome àquele elevado horroroso é uma anti-homenagem”, concordou outro. O fato é que não só o Minhocão mudou de nome, como a Justiça de São Paulo chegou a determinar a alteração de todos os nomes de ruas e espaços públicos que homenageiam pessoas ligadas à ditadura.
Mais recentemente, a polêmica ficou por conta da proposta de mudança de nome da Rua Peixoto Gomide – outra medida mais do que justa, já que não merece mesmo homenagem um político que matou a própria filha. Em tempos de polarização – e disputas simbólicas são as que tendem a provocar maior engajamento nas redes sociais –, é claro que até essa mudança gerou controvérsia, com muita gente defendendo que o homenageado era o Peixoto Gomide pai, e não seu filho feminicida.
Militante que sou das cidades para as pessoas, também quero entrar nessa polêmica de mudança do nome de vias – alteração de placas de trânsito, no caso. Explico: perto de casa, costumo caminhar pelas ruas Cotoxó, Tucuna e Caraíbas, que começam ali perto da Turiassu (quero dizer, Palestra Itália), atravessam o bairro da Pompeia, cruzam a Alfonso Bovero, a Cajaíba, e terminam na Rua Francisco Bayardo. Um desavisado passando por ali pode pensar que elas terminam na Cajaíba, mas três escadões conectam as ruas da parte alta do bairro à parte baixa, e elas seguem então até a Francisco Bayardo.
Pois bem. Voltando dia desses a pé da estação Vila Madalena do metrô, eis que me deparo com uma placa de “Rua sem saída” no final da Cotoxó. Ora, como sem saída, se é possível subir a pé pelas escadas e chegar lá em cima, onde a rua continua até os arredores da Palestra Itália? Um pedestre desavisado poderia pensar mesmo que a rua não tem saída e procurar outro caminho, perder tempo e até um eventual compromisso importante.
Proponho assim que, em casos como esse, as placas de “Rua sem saída” sejam substituídas por placas de “Rua sem saída para carros” ou “Rua com saída apenas para pedestres”. E aí, será que a mudança também geraria polêmica, progressistas pedindo toda uma alteração na sinalização de trânsito voltada para os pedestres, enquanto conservadores defenderiam que todo mundo já está acostumado com as placas do jeito que são, que as mudanças serviriam apenas para gerar custos e confusão?
Brincadeiras à parte, não canso de me surpreender com o destaque desproporcional que essas questões menores como mudança de nome de via costumam receber. Não que as alterações propostas não sejam justas – muito pelo contrário: as lutas pela memória, contra o autoritarismo, contra o feminicídio e por uma cidade para as pessoas são não só legítimas como necessárias.
Fico me perguntando, contudo, se essas batalhas simbólicas não acabam por desviar o foco dos verdadeiros problemas; se os problemas sociais e urbanos são tão complexos que acabamos atraídos pelas polêmicas mais simples, nas quais nos sentimos mais à vontade para opinar. Fico me perguntando, enfim, se não nos iludimos com pequenas vitórias simbólicas para evitar a desilusão maior e definitiva ante a enorme dificuldade de enfrentar problemas realmente graves, que demandam muito mais tempo, reflexão e dedicação.
O Minhocão, por exemplo. Mudou de nome há dez anos, mas ainda está lá, trazendo sombra e degradação ao entorno, sem solução simples nem imediata. Mudou de nome há dez anos, mas continua sendo chamado, como sempre, de Minhocão.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.