Quem vai construir nossas cidades?

1 de outubro de 2026

Durante décadas, uma das características da construção civil brasileira foi a abundância de mão de obra. Construímos nossas cidades apoiados em um modelo intensivo em trabalhadores e, muitas vezes, pouco intensivo em tecnologia. Mas hoje esse modelo começa a encontrar seu limite.

Construtoras de todo o Brasil relatam dificuldade crescente para contratar pedreiros, carpinteiros, eletricistas e outros profissionais. Além disso, essa força de trabalho está envelhecendo sem que uma nova geração entre nos canteiros na mesma velocidade.

Parte da explicação pode estar muito longe das obras, e dentro dos nossos celulares. Uber, iFood e outras plataformas criaram novas possibilidades de geração de renda. Apesar dos conhecidos problemas de precarização e falta de proteção trabalhista, oferecem algo valorizado por muitos trabalhadores: autonomia e uma atividade percebida como menos penosa.

Isso não significa que trabalhar para aplicativos seja necessariamente melhor ou mais rentável, mas significa que o trabalhador passou a ter alternativas. Não basta, portanto, dizer que “ninguém mais quer trabalhar em obra”. Precisamos perguntar por que, diante da possibilidade de escolher, tantos jovens não querem estar no canteiro.

Precisamos de mais braços? A reação natural à escassez é procurar mais trabalhadores: capacitar jovens, criar escolas técnicas, melhorar salários. Tudo isso é necessário, mas também existe outra resposta: precisar de menos mão de obra para produzir a mesma quantidade de edifícios.

A agricultura se mecanizou. A indústria automobilística criou linhas de montagem e robôs. A logística se automatizou. A construção, porém, ainda produz grande parte dos seus edifícios quase artesanalmente. Levamos toneladas de materiais até um terreno e montamos uma pequena fábrica temporária, que será desmontada quando o prédio estiver pronto.

Industrializar significa inverter parte dessa lógica. Paredes, fachadas e instalações podem chegar prontas. Banheiros inteiros podem ser produzidos em fábrica. Sistemas modulares permitem fabricar partes do edifício em ambientes controlados e apenas montá-las no terreno. Não é simplesmente uma questão de substituir pessoas por máquinas, mas de usar melhor as pessoas que temos.

A qualidade do trabalho também faz parte dessa equação. Se queremos atrair uma nova geração, precisamos reduzir tarefas repetitivas e fisicamente exaustivas, mecanizar o transporte de materiais, melhorar segurança e ergonomia e criar perspectivas de carreira.

Isso pode até ajudar a enfrentar outro problema histórico, que é a baixa participação feminina. Quanto menos uma função depender de força física e mais de máquinas, ferramentas e conhecimento técnico, maior será o universo de pessoas capazes de exercê-la. Atrair mulheres para a construção não é apenas uma pauta de diversidade, mas, diante da escassez de trabalhadores, é também uma questão econômica.

Há uma ironia nisso tudo. Há décadas discutimos industrialização e produtividade na construção. No entanto, enquanto havia mão de obra relativamente barata e abundante, o incentivo para transformar radicalmente o canteiro era limitado. Agora isso mudou.

Talvez a escassez de mão de obra seja justamente o empurrão que faltava. A pergunta deve deixar de ser: onde encontraremos mais braços para construir nossas cidades? Para se tornar: como podemos construir mais usando menos esforço humano e mais inteligência?

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta e urbanista, especialista em Gestão de Projetos e mestre em arquitetura pela UFRN. Atualmente é sócia da PSA Arquitetura em São Paulo (www.psa.arq.be) e da PROA Brasil (www.proabrasil.com), em Natal-RN.
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