Quando o orelhão sai de cena, o que fica no lugar?

5 de fevereiro de 2026

Os orelhões serão removidos de todo o país. A notícia pode parecer banal — afinal, há anos eles já não cumprem a função prática para a qual foram criados. Mas, do ponto de vista urbano, ela é tudo menos trivial. O orelhão não é apenas um equipamento obsoleto: é um símbolo de como o design de qualidade pode — ou poderia — qualificar o espaço público.

Criado nos anos 1970, o orelhão brasileiro é um raro exemplo de design industrial pensado para a rua, para o clima, para o uso intensivo e para a escala da cidade. Assinado pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira, o equipamento não era apenas funcional; era reconhecível, robusto, quase escultural. Tornou-se parte da paisagem urbana, da memória coletiva e da identidade visual de nossas cidades. Poucos equipamentos urbanos conseguiram esse feito.

O problema nunca foi o orelhão em si. Foi o abandono do raciocínio que o originou.

Ao longo das últimas décadas, fomos trocando a ideia de projeto pela de improviso. Equipamentos urbanos passaram a ser tratados como custo, não como investimento. Bancos desconfortáveis, abrigos de ônibus improvisados, postes, lixeiras e sinalizações desconectados entre si. A cidade virou um somatório de objetos, não um sistema coerente.

A retirada dos orelhões escancara essa fragilidade. Quando um elemento urbano desaparece, a pergunta central deveria ser: o que entra no lugar? Um vazio? Um poste genérico? Nada? A ausência também comunica. E comunica pouco cuidado.

Cidades bem-sucedidas entendem que o espaço público é uma infraestrutura cultural. Não basta funcionar, precisa fazer sentido. Precisa durar. Precisa ser reconhecível. Precisa criar vínculo. O design, nesse contexto, não é ornamento, mas estratégia urbana. Ele organiza fluxos, cria identidade, reduz vandalismo, melhora a experiência cotidiana e eleva a percepção de valor do ambiente urbano como um todo.

Remover o orelhão sem um pensamento substitutivo é perder uma oportunidade. Poderia ser o momento de discutir novos elementos urbanos: totens de informação, pontos de Wi-Fi bem desenhados, mobiliário que convide à permanência, sinalização clara, equipamentos resilientes ao clima brasileiro. Tudo isso existe, mas falta decisão.

O espaço público brasileiro sofre menos por falta de recursos e mais por falta de projeto. Falta visão de longo prazo, coordenação entre áreas, compromisso com a qualidade. Quando abrimos mão do desenho, aceitamos a mediocridade como padrão. E a cidade sente.

O fim dos orelhões não precisa ser apenas um encerramento melancólico. Pode — e deveria — ser um marco de transição. Um lembrete de que objetos urbanos importam. De que design importa. E de que cidades são feitas de escolhas aparentemente pequenas, mas estruturalmente decisivas.

O orelhão sai de cena. A pergunta que fica é simples e incômoda: estamos preparados para colocar algo melhor no lugar?

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

Compartilhar:

Arquiteta e urbanista, especialista em Gestão de Projetos e mestre em arquitetura pela UFRN. Atualmente é sócia da PSA Arquitetura em São Paulo (www.psa.arq.be) e da PROA Brasil (www.proabrasil.com), em Natal-RN.
VER MAIS COLUNAS