Em uma das áreas onde atuo, na favela do Jardim Colombo, há crianças que conseguem identificar diferentes tipos de concreto, muros e vielas, mas raramente tiveram a oportunidade de brincar sob a sombra de uma grande árvore. Parece um detalhe, mas não é. Essa ausência revela uma das desigualdades mais silenciosas das cidades brasileiras: o acesso à natureza.
Costumamos associar a falta de infraestrutura urbana à ausência de saneamento, moradia adequada ou transporte público. Esses problemas são reais e urgentes. Mas existe outra carência que afeta diretamente a qualidade de vida das pessoas e que ainda recebe pouca atenção: a escassez de áreas verdes nos territórios mais vulneráveis.
Quem tem direito à sombra? Quem pode caminhar por um parque sem precisar atravessar longas distâncias? Quem consegue abrir a janela e enxergar árvores em vez de muros, fios e telhados? Essas perguntas ajudam a perceber como a natureza também é distribuída de forma desigual dentro das cidades.
Enquanto alguns bairros concentram parques, praças arborizadas e ruas agradáveis para caminhar, outros convivem diariamente com ilhas de calor, enchentes, terrenos abandonados e espaços públicos degradados. Em muitos casos, as populações mais expostas aos impactos das mudanças climáticas são aquelas que possuem menos acesso aos benefícios ambientais.
O contato com a natureza não deve ser entendido como luxo, paisagismo ou elemento decorativo da cidade. É uma questão de saúde pública, justiça social e direito à cidade. Árvores reduzem temperaturas, melhoram a qualidade do ar, auxiliam na drenagem das águas da chuva, contribuem para a saúde mental e fortalecem os vínculos comunitários quando associadas a espaços de encontro e convivência.
A pandemia tornou essa desigualdade ainda mais evidente. Enquanto algumas famílias puderam buscar refúgio em parques e áreas abertas, milhões de pessoas permaneceram confinadas em territórios densamente ocupados, sem espaços adequados para lazer, descanso ou contato com o meio ambiente.
Hoje reflito que um dos maiores desafios do urbanismo não seja apenas criar novas áreas verdes, mas reconhecer que elas precisam chegar primeiro onde historicamente estiveram ausentes. Isso significa olhar para favelas, periferias e áreas degradadas não como vazios urbanos ou problemas a serem resolvidos, mas como territórios que também merecem rios limpos, parques acessíveis, ruas arborizadas e espaços de convivência qualificados.
Democratizar o acesso ao verde não é uma pauta ambiental isolada, mas uma escolha sobre qual cidade queremos construir e para quem ela será construída. Por que ainda aceitamos que o CEP determine quem pode viver próximo à natureza?
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.