Quando a escola transforma o território: o sistema integrado de educação na Colômbia

27 de agosto de 2026

Os colégios públicos construídos na Colômbia, especialmente em Medellín e Bogotá, oferecem lições importantes para quem trabalha com Urbanismo Social. Quando estive no país, em um intercâmbio voluntário, pude conhecer de perto algumas dessas experiências e fiquei impressionada com a qualidade arquitetônica das escolas inseridas em territórios periféricos (fotos da Escola Antonio Derka, em Medellín).

Com o tempo, minha curiosidade foi além da arquitetura: passei a compreender melhor as políticas e estratégias que sustentaram a implantação desses equipamentos. Os edifícios escolares foram concebidos como equipamentos urbanos capazes de transformar a relação entre as pessoas e o lugar.

Outro aspecto que chama atenção é a forma como esses equipamentos são distribuídos pelo território. Em vez de concentrar investimentos nas áreas mais estruturadas da cidade, a experiência colombiana buscou levar escolas de qualidade para regiões com maior demanda, déficit de infraestrutura e menores níveis de consolidação urbana. A localização passa, assim, a ser parte da própria política pública, a escola não chega ao território por acaso, mas como uma escolha de planejamento capaz de ampliar o acesso, fortalecer centralidades locais e aproximar equipamentos públicos das comunidades.

Alguns dos principais aprendizados são:

  • Arquitetura como símbolo de dignidade: Em vez de oferecer edifícios “simples” por estarem em áreas periféricas, muitos projetos apresentam arquitetura contemporânea de alta qualidade, transmitindo a mensagem de que os moradores desses territórios merecem o melhor.
  • Escola como centro da comunidade: Muitas unidades funcionam além do horário escolar, recebendo atividades culturais, esportivas, reuniões comunitárias e cursos profissionalizantes. A escola deixa de ser um equipamento isolado e passa a ser um espaço público ativo.
  • Integração com o território: Os projetos dialogam com a topografia, aproveitam as vistas, criam praças, escadarias e espaços de permanência, conectando a escola ao bairro em vez de cercá-la por muros.
  • Qualidade dos espaços internos: Salas iluminadas naturalmente, ventilação cruzada, pátios, áreas verdes, bibliotecas, espaços de convivência e ambientes flexíveis favorecem o aprendizado e o bem-estar.
  • Espaços públicos seguros: A implantação costuma qualificar o entorno imediato, criando praças, calçadas e áreas de encontro que aumentam a circulação de pessoas e a sensação de segurança.

A experiência colombiana mostra que a qualidade de um equipamento público não pode ser dissociada das decisões que orientam sua localização e a relação com o entorno. Quando arquitetura, planejamento territorial e política pública são pensados de forma articulada, a escola pode contribuir para reduzir desigualdades de acesso à infraestrutura urbana e fortalecer territórios historicamente negligenciados.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta e ativista urbana, pós graduada em urbanismo social e habitação e cidade, mestre em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano, Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo, atua com a gestão de projetos e ações sociais em territórios periféricos no Instituto Fazendinhando.
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