Copacabana acaba de conquistar um recorde mundial. Segundo levantamento do Inside Airbnb, o bairro concentra a maior densidade de imóveis para aluguel por temporada do planeta: mais de 13 mil anúncios, num universo superior a 48 mil no Rio de Janeiro. O dado impressiona, mas seu significado vai além do turismo, e revela uma transformação na função da cidade.
Nos últimos quinze anos, plataformas digitais revolucionaram a hospedagem e geraram renda para milhares de famílias, ganhos inegáveis. O desafio surge quando o aluguel por temporada deixa de ser complementar e passa a competir com a moradia permanente: fenômeno que a literatura urbana já batiza de touristification, ou “turistificação”, a reorganização do espaço em função do consumo turístico, em detrimento da vida residencial.
Do ponto de vista econômico, o movimento é racional: se um imóvel gera receita maior alugado por poucos dias do que em contrato residencial de longo prazo, proprietários migram para esse modelo. O resultado previsível é a redução da oferta convencional e o aumento dos preços para quem vive e trabalha na cidade, efeito já documentado em estudos sobre o impacto do Airbnb no mercado de aluguel.
Edward Glaeser, economista de Harvard, lembra que o maior ativo das cidades é a capacidade de concentrar pessoas, talentos e oportunidades — concentração que depende da possibilidade de morar nelas. Quando a habitação se torna inacessível, a cidade perde o que a tornou atraente.
Os efeitos vão além do mercado imobiliário. Bairros deixam de ser comunidades para se tornar áreas de ocupação transitória; comércio muda de perfil, escolas perdem alunos, relações de vizinhança se enfraquecem — erosão do tecido social que sustenta a vitalidade urbana, no sentido descrito por Jane Jacobs.
O fenômeno já levou cidades a reverem suas políticas: Barcelona limitou novas licenças em áreas específicas, Amsterdã restringiu o número de diárias permitidas por ano, Nova York endureceu as regras para locações de curta duração — reconhecendo que turismo e moradia não podem disputar o mesmo estoque habitacional sem regulação. O Brasil começa a entrar nesse debate, e Copacabana é o exemplo mais visível de uma tendência que também alcança Florianópolis, Salvador, Fortaleza e Natal.
A discussão não deveria opor-se às plataformas, mas construir regras que preservem seus benefícios econômicos sem comprometer o acesso à moradia e a vitalidade dos bairros. Jacobs já escrevia, há mais de sessenta anos, que cidades vivas dependem de moradores permanentes ocupando suas ruas em diferentes horários do dia: a diversidade urbana nasce da vida cotidiana, não da rotatividade de visitantes.
O sucesso de uma cidade turística não deveria ser medido só pelo volume de visitantes, mas pela capacidade de continuar sendo um bom lugar para quem acorda nela todos os dias.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.