Cães comunitários não são apenas animais abandonados. Eles são um termômetro silencioso da vida urbana. Surgem onde a cidade ainda funciona como espaço compartilhado, onde alguém coloca água, outro observa, outro se responsabiliza sem contrato nem obrigação formal. Eles existem no intervalo entre o público e o privado — exatamente onde a cidade deveria ser mais forte.
A violência contra esses animais não é um fato isolado nem um desvio moral individual. Ela revela algo mais profundo: a dificuldade crescente das cidades brasileiras em lidar com o que não pode ser totalmente controlado. O cão comunitário incomoda porque escapa à lógica do dono, do portão, do cadastro, da vigilância. Ele está ali porque a rua ainda é rua.
Nas últimas décadas, transformamos o espaço urbano em um conjunto de territórios defensivos. Condomínios fechados, calçadas esvaziadas, praças sem permanência. Tudo o que não se encaixa nessa organização passa a ser visto como ameaça: o animal, o vendedor ambulante, o morador de rua, o jovem que ocupa o espaço sem pedir licença. A reação quase sempre é a mesma — remover, expulsar, eliminar.
A agressão ao cão comunitário nasce dessa mentalidade. Não é sobre o animal em si, mas sobre a intolerância ao comum. Em cidades que desaprenderam a conviver, o cuidado vira exceção e a violência se normaliza como solução prática. Resolver o “problema” passa a ser mais importante do que compreendê-lo.
Há, porém, outra leitura possível. Cuidar de um cão comunitário exige exatamente aquilo que nossas cidades vêm perdendo: coordenação informal, empatia cotidiana, responsabilidade compartilhada. Não é um gesto romântico, é um exercício urbano. Onde ele acontece, ainda há laço social. Onde ele é destruído, algo já se rompeu antes.
Talvez por isso esses episódios provoquem tanto desconforto. Eles escancaram uma pergunta incômoda: que tipo de cidade estamos construindo quando o que é vulnerável passa a ser tratado como descartável? Uma cidade que não tolera um animal indefeso dificilmente saberá lidar com conflitos mais complexos.
No fim, a forma como reagimos à presença — ou à violência — contra cães comunitários revela menos sobre eles e mais sobre nós. Sobre nossa capacidade, cada vez mais rara, de reconhecer que a cidade não é só propriedade, norma e controle. É, sobretudo, convivência.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.