Profissão: arquiteto ou a vida como ela é

4 de fevereiro de 2026

O livro “Como viver da arquitetura”, da arquiteta espanhola Caterina De La Portilla, recém-lançado no Brasil, apresenta-se como um manual, estruturado em seis capítulos, cada um organizado em dez pontos de reflexão — alguns bastante diretos, com caráter prático e aplicável ao cotidiano profissional. De maneira geral, o livro propõe o deslocamento da idealização da profissão para uma aproximação com o trabalho concreto que sustenta — ou não — a vida de quem escolheu a arquitetura como ofício, sem recorrer à romantização desse percurso.

O ponto de partida é uma angústia amplamente compartilhada entre arquitetos, segundo Caterina, ainda que nem sempre nomeada: a dificuldade de viver da carreira escolhida em um ambiente marcado por baixos salários, jornadas exaustivas e a insistente sensação de instabilidade. 

A obra aponta o descompasso entre a formação acadêmica e os mercados contemporâneos. As escolas de arquitetura, moldadas por contextos de expansão urbana e reconstrução no pós-guerra, estruturaram o ensino em torno da prática voltada à edificação como grande e único objetivo final. O projeto permanece, assim, como núcleo principal da formação, quase sempre orientado para exercícios abstratos ou altamente especializados no que se refere a encomendas — como museus, escolas ou centros culturais —, que pouco dialogam com a realidade do mercado dos dias de hoje. A autora sublinha que essa lógica não corresponde às demandas das cidades atuais, especialmente as consolidadas, onde o desempenho profissional pode e deve ser mais diverso e criativo. 

Ao mesmo tempo, o livro reconhece uma característica estruturante da formação em arquitetura: seu caráter multidisciplinar. A grade curricular articula artes, teoria, técnica, matemática, física, engenharia de materiais, além da compreensão das cidades, de seus marcos legais e de seus fundamentos históricos e sociais. Esse repertório contribui para formar trabalhadores capazes de ler cenários complexos e articular diferentes campos do conhecimento. No entanto, sem um esforço posterior de posicionamento, a formação generalista tende a produzir profissionais versáteis e, simultaneamente, pouco objetivos quanto ao valor específico que oferecem, a quem o oferecem e em quais termos.

Outra questão essencial abordada diz respeito à distância entre aprender a projetar e aprender a gerir. A formação ensina a conceber, representar e detalhar espaços com precisão, mas raramente prepara para organizar processos, estruturar honorários, dimensionar carga horária de trabalho ou lidar com contratos, responsabilidades legais, fornecedores e clientes. 

Há ainda um aspecto cultural recorrente: a baixa circulação de trocas entre arquitetos sobre as dimensões organizacionais e econômicas do trabalho. Compartilham-se imagens, referências e soluções técnicas, todavia, quase nunca entram em pauta valores financeiros, erros de negociação, estratégias comerciais ou modelos contratuais. 

No conjunto, “Como viver da arquitetura” se afasta da ideia de um guia voltado ao “sucesso” individual e se aproxima de uma reflexão sobre responsabilidade profissional. A obra sustenta que “viver da arquitetura” envolve mais do que projetar com qualidade: implica compreender o próprio posicionamento no mercado, estruturar processos de trabalho e transformar repertório técnico e cultural em valor concreto, de modo a tornar a prática viável, sustentável e prazerosa.

Heloisa Loureiro Escudeiro
Coordenadora-adjunta do Núcleo Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper. 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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