Produzir a cidade

12 de fevereiro de 2026

Explicar arquitetura é muito difícil, para não dizer impossível.

Quer dizer, tem como conceituar, e tem como descrever as motivações, as referências utilizadas, as citações a outras obras e outros arquitetos, os principais elementos, materiais e a geometria básica envolvida.

Daí para a representação real, para o projeto propriamente dito, para o impacto visual causado (ou não) e para que o leitor imagine o prédio pela descrição, vai uma distância imensa, basicamente uma impossibilidade. 

Nessa dimensão, a arquitetura estará no mesmo plano da publicidade e das artes visuais, tanto quanto no plano da música: não há descrição que possibilite “enxergar” (compreender) a obra por inteiro. Precisa ver (muitas vezes por vários ângulos), e precisa escutar. 

No sentido oposto, se uma obra exige explicação para fazer sentido, então já não fez, não impressionou, não agradou e não “veio para ficar”. Se a música não emociona, não há explicação — ou contexto — que a torne melhor; se a publicidade é ruim, não adianta explicar, porque não vai vender; se a obra de arte é pouco imaginativa e não carrega um significado com impacto imediato, ou não é arte, ou é arte de segunda categoria.

Na arquitetura, vale exatamente a mesma coisa, mas em três dimensões complementares: a externa, a interna e sua relação com a cidade. O prédio pode ter uma arquitetura incrível, uma plástica impactante, uma volumetria marcante, uma identidade memorável, mas pode ser ruim pelo lado de dentro, com espaços sem graça, mal iluminados, mal articulados, ou pode oferecer, ao contrário, uma ambientação que proporcione conforto espacial e ambiental, e propicie sensação de bem-estar, resultados positivos tanto nas dimensões objetivas, quanto nas subjetivas.

Ou pode ter uma arquitetura incrível, uma volumetria marcante, uma identidade memorável e ser igualmente interessante pelo lado de dentro, mas pode negar a cidade, virar de costas, se esconder atrás de muros e emparedar o pedestre, deixado à própria sorte.

A arquitetura não é mais (nem menos) importante do que qualquer outra manifestação artística, mas é — definitivamente — muito mais complexa, porque exige o encontro das dimensões criativa e técnica, temperada com inteligência, proporção e harmonia, e embalada com muita engenharia. Exige, ainda, o gosto pela cidade e a compreensão da relação da parte com o todo.

É mais complexidade, mas é também precisar lidar com uma escala “tamanho-cidade”: obras de arte, peças publicitárias e músicas não geram qualquer impacto na cidade, tampouco determinam qualquer aspecto urbano. Mas a forma como os prédios são concebidos, como se articulam com a cidade e sua população, a forma como “conversam” com a calçada e os pedestres, mudam a quadra, o bairro, a percepção de qualidade, o cenário e outros aspectos menos objetivos, mas que impactam a percepção da população sobre a cidade ou determinado setor da cidade.

A soma de cada prédio define a “cara” que a cidade terá e, novamente, a percepção que a população terá, e o vínculo dessa população com essa cidade. Uma cidade feia é o resultado de uma cidade composta por uma maioria de prédios feios.

Precisamos falar sobre a responsabilidade que arquitetos e incorporadores têm sobre o presente e sobre o futuro da cidade.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteto e Urbanista, sócio da incorporadora CASAMIRADOR e fundador do INSTITUTO CALÇADA. Acredita que as cidades são a coisa mais inteligente que a humanidade já criou. ([email protected])
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