A produtividade brasileira é um enigma que costumamos tentar resolver olhando apenas para dentro do comércio, das fábricas e dos escritórios, ignorando que o maior dreno de eficiência do país acontece no asfalto, muito antes de o trabalhador bater o ponto. Se patinamos frente aos números norte-americanos, não é apenas por falta de tecnologia, mas por uma escolha política e urbanística deliberada que condena a nossa força de trabalho ao exílio urbano cotidiano.
Segundo a matéria “Produtividade do americano equivale a quatro brasileiros”, da Folha de S.Paulo, baseada em dados do The Conference Board, a discrepância é pedagógica: o que um americano produz em uma hora, o brasileiro leva quatro para entregar. Esse “atoleiro” econômico não é fruto de uma incapacidade inata, mas de um sistema de distorções onde a infraestrutura precária e as metrópoles congestionadas desempenham um papel central na erosão do valor gerado por hora.
A divergência entre o urbanismo compacto e o disperso revela escolhas econômicas profundas. Enquanto o modelo de Ildefonso Cerdá em Barcelona buscava uma vitalidade contínua com densidades superiores a 20 mil habitantes por km², as Américas seguiram o caminho do espalhamento. O resultado são cidades que consomem território e recursos de forma absurda, ampliando os custos de infraestrutura e mantendo elevados os preços dos imóveis.
Se a situação é ruim nos Estados Unidos, no Brasil ela assume contornos ainda mais graves: operamos sob um sistema de zoneamentos rígidos e afastamentos progressivos que resultam em um baixíssimo aproveitamento dos lotes. Na prática, essa rigidez legislativa funciona como um mecanismo de segregação que empurra as camadas mais pobres para as periferias extremas, muitas vezes a mais de duas horas de viagem do centro.
Produzir a cidade equivale à montagem de uma máquina com partes interligadas, onde o resultado estará diretamente relacionado pela afinidade entre as partes e o aproveitamento da energia e vitalidade geradas por cada peça, que precisa gerar mais energia do que consome.
Mas o que se verifica é uma modernidade que não trouxe eficiência, apenas expulsou a baixa renda e destruiu a chance de um sistema de transporte funcional. O urbanismo modernista espalhou as cidades e encareceu a terra, obrigando construtoras de moradia social a buscarem terrenos em municípios vizinhos, locais isolados e sem qualquer centralidade.
Como observou Alain Bertaud, locais com zoneamento restrito contribuem para o congelamento da capacidade construtiva e a redução do dinamismo econômico local. Manter esse modelo não é uma decisão técnica; é um descolamento da realidade e uma negação sistemática dos dados.
No final do dia, o que importa para o legislador parece ser o ato de regular e fiscalizar, ignorando se isso inviabiliza o acesso da população mais necessitada à cidade.
Para romper esse ciclo de ineficiência e resgatar a produtividade, a solução passa obrigatoriamente pela revisão das nossas premissas urbanas. É urgente recuperar a lógica de ocupação plena dos lotes e a alta densidade que permite cidades mais compactas e funcionais.
Precisamos de regras simples e inteligentes que favoreçam o uso misto e a vitalidade dos centros, reduzindo a dependência do automóvel e o tempo desperdiçado em deslocamentos. O urbanismo eficiente é aquele que volta a permitir o amadurecimento (e a regeneração) dos centros urbanos, adotando modelos onde a proximidade entre moradia, trabalho e lazer reduza o custo de manutenção da infraestrutura.
No urbanismo, o verdadeiro progresso reside em resgatar a lógica vernacular que prioriza a escala humana e o aproveitamento inteligente do solo, transformando nossas metrópoles em motores de crescimento, e não em obstáculos à produtividade nacional.
A regeneração – eu diria, o resgate – das áreas centrais não é apenas uma oportunidade, mas, antes, uma obrigação do executivo municipal e uma responsabilidade da comunidade, da academia e das elites para com a população mais necessitada.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.