Princípios do fortalecimento comunitário: contribuições de Maritza Montero

24 de julho de 2026

Na minha pesquisa de doutorado, tenho também me aprofundado nas contribuições da psicóloga social Maritza Montero, uma das principais referências latino-americanas nos estudos sobre participação e fortalecimento comunitário.

Falar em fortalecimento comunitário é reconhecer que as transformações mais duradouras não acontecem quando soluções são impostas de fora para dentro, mas quando as próprias comunidades se tornam protagonistas dos processos de mudança.

Para Montero, o fortalecimento comunitário é um processo por meio do qual indivíduos e coletivos ampliam sua capacidade de compreender criticamente a realidade, participar das decisões que afetam suas vidas e atuar de forma organizada para promover mudanças. Entre os princípios que sustentam esse processo, destaca-se o protagonismo da comunidade. Os moradores deixam de ser vistos como beneficiários passivos e passam a ocupar o papel de sujeitos ativos, capazes de identificar problemas e construir soluções a partir de seus próprios conhecimentos e experiências.

Na perspectiva de Montero, participar ultrapassa a presença em reuniões ou consultas públicas, envolvendo a construção de relações de corresponsabilidade, o compartilhamento de poder e a capacidade dos sujeitos de influenciar as decisões que orientam os caminhos do próprio território.

O fortalecimento comunitário também está relacionado à construção de uma consciência crítica. A partir das contribuições de Paulo Freire, incorporadas por Montero, a educação é compreendida como um processo de diálogo e formação dos sujeitos, capaz de ampliar a leitura sobre a realidade e fortalecer a capacidade coletiva de atuação sobre o território. Esse processo contribui para que moradores reconheçam seus próprios saberes, compreendam os desafios enfrentados e participem da construção de caminhos de transformação.

A autonomia constitui outro elemento importante, o objetivo não é criar relações permanentes de dependência em relação a governos, organizações ou especialistas, mas fortalecer capacidades locais para que a comunidade conduza seus próprios processos de desenvolvimento, estabelecendo parcerias sem abrir mão de sua capacidade de decisão.

Nesse contexto, o conhecimento é construído coletivamente. O saber técnico e científico dialoga com os conhecimentos produzidos pela própria comunidade, valorizando a experiência cotidiana dos moradores como parte essencial da construção de soluções socialmente adequadas.

A organização coletiva também ocupa papel estratégico. Redes de solidariedade, associações, grupos comunitários e lideranças fortalecem os vínculos sociais e ampliam a capacidade de mobilização diante dos desafios comuns, tornando a ação coletiva mais consistente e sustentável.

O fortalecimento comunitário é um processo político e ético que reconhece os moradores das favelas e demais territórios populares como sujeitos ativos na produção da cidade, ampliando as possibilidades de participação, autonomia e construção de formas mais justas de organização do espaço urbano.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta e ativista urbana, pós graduada em urbanismo social e habitação e cidade, mestre em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano, Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo, atua com a gestão de projetos e ações sociais em territórios periféricos no Instituto Fazendinhando.
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