“Quando eu vim morar aqui, era tudo mal-acabado, era esgoto a céu aberto…. Esse rio…. Não tinha rio, era totalmente assoreado. Qualquer chuvinha, a água subia, destruía tudo, acabava com tudo.“
O relato acima, feito a mim por Sueli, moradora da Favela do Sapé em 2016, remete a uma situação vista até hoje em várias outras favelas do Brasil. Dias depois de o Instituto Trata Brasil divulgar o estudo Ranking do Saneamento 2026, veio-me à mente o que vi e ouvi há dez anos enquanto coletava informações para o meu Trabalho Final de Graduação nesse território.
Como muitas favelas paulistanas, o Sapé, na Zona Oeste de São Paulo, foi erguido ao longo da várzea de um córrego que recebia esgoto e lixo. Muitas casas foram construídas literalmente em cima do curso d’água. Quando chovia, acontecia o descrito por Sueli. Sem falar no mau cheiro, nos ratos, nas baratas e nos outros insetos que tomavam a área.
As obras de urbanização no Sapé, que estavam em andamento em 2016, incluíram a canalização sem tamponamento, a despoluição do córrego e a instalação de redes de esgoto na favela. Os resultados não demoraram a chegar: a partir do Programa Córrego Limpo da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP), a qualidade da água registrada pela Fundação SOS Mata Atlântica avançou de ruim em 2014 para um valor próximo de bom em 2016.
Dados do Governo Federal referentes a 2022 revelaram que 52,2% do esgoto gerado no Brasil era tratado naquele ano. Além disso, um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostra que mais de 1,2 milhão de famílias no Brasil habita casas sem banheiros ou sanitários – outro desafio referente ao saneamento e à dignidade da pessoa humana.
Vale dizer que o esgoto que se avoluma nos nossos rios e córregos não é um problema só de quem mora em domicílios sem coleta ou tratamento. A cidade de Guarulhos, por exemplo, trata apenas 15,35% do seu esgoto segundo o Ranking do Saneamento 2026. Isso configura um problema para todos os seus quase 1,3 milhão de habitantes e para parte significativa da população do Estado de São Paulo, que é cortado pelo Rio Tietê, destino final de boa parte do esgoto in natura originado na cidade.
As experiências dos moradores e os dados coletados não escondem o tamanho do desafio que enfrentamos. A ausência de saneamento básico em favelas tem implicações de saúde pública e morais. Como podem muitos de nós ignorar a insalubridade pela qual passou Sueli, no Sapé, e pela qual passa boa parte dos mais de 16 milhões de moradores desses territórios no país?
Das obras no Sapé para cá, muita coisa aconteceu. Dentre elas, a aprovação, em 2020, do Marco Legal do Saneamento, que projetou a universalização do saneamento básico até 2033.
Vamos atingir a meta ou ao menos chegar perto dela? Para respondermos, ainda precisamos aguardar. Há quem diga que políticos não executam obras de saneamento porque elas, demoradas e feitas debaixo da terra, não dão votos. Quero acreditar que não será o caso.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.