Quando escrevi no ano passado que “A melhor escola é a perto de casa”, minha esposa e eu ainda estávamos avaliando em qual escola matricularíamos nosso filho mais velho, que neste ano ingressaria no ensino fundamental. No artigo, argumentei que a escola ideal seria a melhor combinação possível de valor da mensalidade e necessidade de deslocamento, privilegiando-se sempre a possibilidade de ir e voltar com as crianças a pé, caminhar pelo bairro e fortalecer ainda mais a relação com a comunidade.
Como na equação também entrava o valor da mensalidade – e dinheiro ainda não nasce em árvore –, acabamos optando não pela escola mais próxima, mas por outra também localizada no bairro, porém a 1,2 km de casa (ou pelo menos 30 minutos de caminhada com duas crianças) – duas crianças, e não apenas uma, porque o filho mais novo quis mudar de escola junto com o irmão, é claro.
Ainda que eu seja um grande entusiasta das caminhadas pela cidade, por causa do horário de entrada do ensino fundamental (cedo demais!) e da subida muito íngreme no caminho, tenho levado as crianças até a escola nova de carro, trajeto percorrido dessa forma em não mais do que 5 minutos (eu sei, podem me julgar).
Adoraria poder relatar aqui que, neste ano, passamos a acordar todos mais cedo, felizes e ansiosos pela caminhada matinal até a escola, mas quem tem filhos pequenos sabe que as coisas não são bem assim. O mais velho até acorda cedo de vez em quando e toma café da manhã comigo. O mais novo, porém, num dia muito bom levanta da cama uns 10 minutos antes do início da primeira aula – e, nesses melhores dias, conseguimos chegar à escola apenas uns 5 minutos atrasados.
Na volta da escola, ao menos, temos privilegiado as caminhadas, favorecidas agora pela descida suave. É quando os degraus e até as péssimas calçadas estreitas em alguns trechos se transformam em uma aventura de pulos e equilibrismo do Super Mario Bros., sempre com direito a alguma parada no caminho: um lanche em algum café, compras no supermercado, gibis folheados na velha banca de jornal.
Fico feliz também de saber que a nova escola promove frequentemente atividades a pé pelo entorno, desde uma simples caminhada de reconhecimento pelo quarteirão até visitas a estabelecimentos comerciais próximos.
Numa dessas manhãs, uns dias atrás, estávamos os três indo à escola de carro, atrasados como sempre, quando meu filho mais velho perguntou por que eu não entrava à esquerda. Aquela, afinal, era a rua da escola, estávamos atrasados e, indo reto, teríamos de dar uma baita volta, perdendo, com isso, uns minutos preciosos. Ele observou, inclusive, que quando ele e sua turma deram a volta a pé no quarteirão da escola, haviam virado exatamente naquela esquina à esquerda.
Expliquei, então, que aquela rua era contramão. Está vendo aquela placa redonda ali, com a seta preta apontando para a direita? Ela diz que os carros só podem seguir no sentido indicado por ela, e que é proibido aos carros andar no sentido contrário, chamado de contramão.
Ele ficou pensativo. Um pouco antes de chegarmos à escola, comentou que, às vezes, era bem melhor mesmo andar a pé – algo sempre defendido por mim nos passeios do final de semana. Curioso, perguntei por que ele achava isto, que andar a pé era melhor.
Porque pra quem anda a pé não tem contramão, né, papai?
Pois é. Também andar de carro, às vezes, pode nos ensinar valiosas lições.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.