Madonna, Lady Gaga e Shakira ensinaram o Brasil o que é parceria público-privada de verdade
Existe uma sigla que costuma adormecer qualquer reunião: PPP. Parceria Público-Privada. O tipo de expressão que aparece em editais, processos licitatórios e apresentações de PowerPoint que ninguém lembra no dia seguinte. Mas desde 2024, o Rio de Janeiro está dando aula de como essa sigla pode encher de gente uma praia de 4 km. A PPP, aqui, atende pelo nome de “Todo Mundo no Rio” — e já passou por Madonna, Lady Gaga e Shakira.
O modelo é mais sofisticado do que parece à primeira vista. A Prefeitura do Rio entra com dinheiro público e infraestrutura — R$ 10 milhões para Madonna, R$ 15 milhões para Lady Gaga, R$ 20 milhões para Shakira. A Bonus Track, produtora com décadas de experiência em megashows no país, entra com o artista, a produção e os relacionamentos internacionais. Os patrocinadores privados — Corona, Santander, Google Gemini, Latam, C&A, entre outras 15 marcas só nesta edição — compram cotas de visibilidade de longo prazo. E a TV Globo fecha o ciclo com a transmissão exclusiva, que entregou 32 milhões de espectadores na edição com Lady Gaga.
A chave do modelo não é o show em si. É o contrato de quatro anos. Sem horizonte longo, nenhuma marca de verdade entra; sem marca, o dinheiro público não se sustenta; sem dinheiro público, o artista não vem.
Há uma regra que pouca gente nota, mas que é central: os artistas assinam exclusividade regional. Eles não se apresentam para concorrentes no Brasil ou na América do Sul durante o período acordado. Isso transforma o show de Copacabana em evento único — e não em mais uma data de turnê. É essa diferença que justifica o aporte público. O Rio não está pagando para ver um show. Está pagando para ser o único lugar onde aquele show acontece.
O retorno, segundo a própria prefeitura, é de 40 vezes o investimento. Só nesta edição, o impacto estimado na economia carioca chega a R$ 800 milhões — com 80% dos hotéis esgotados e turistas vindos de toda a América Latina. A exposição internacional espontânea gerada pelo show é avaliada em R$ 1,3 bilhão em valor de mídia. Para comparar: nenhuma campanha de marketing turístico convencional chegaria perto disso pelo mesmo custo.
Há críticas legítimas. Vereadores de oposição questionam se R$ 20 milhões de dinheiro público para um show pop não deveriam ir para saúde ou educação. A morte de um trabalhador durante a montagem do palco de Shakira lembrou que por trás do espetáculo há uma cadeia produtiva com riscos reais. E a ausência do Governo do Estado — que retirou sua cota de R$ 15 milhões a quatro dias do evento, alegando crise fiscal — abriu uma fissura no modelo que merece atenção.
Mas o que o “Todo Mundo no Rio” prova, acima de tudo, é que parceria público-privada não precisa ser sinônimo de concessão de rodovia ou contrato de saneamento. Pode ser uma colombiana cantando de frente para o Atlântico diante de dois milhões de pessoas. Às vezes, a política pública mais eficiente é aquela que a cidade inteira quer ver.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.