Por que “verticalização” é um termo brasileiro

9 de outubro de 2026

Usamos a palavra verticalização com tanta naturalidade no Brasil que raramente pensamos no que ela significa. Quando levamos essa discussão para fora do país, porém, surge uma dificuldade. Expressões como high-rise development, tall buildings ou vertical growth se aproximam, mas nenhuma carrega exatamente o mesmo sentido.

Na literatura brasileira, verticalização não descreve apenas a construção de edifícios altos. O termo representa um processo de transformação urbana associado ao uso do solo, à valorização imobiliária, à infraestrutura, à legislação e à forma como esses edifícios se distribuem pela cidade. 

Essa particularidade foi o ponto de partida de uma pesquisa desenvolvida na Talls Solutions para o Council on Vertical Urbanism, o CVU. O estudo procura compreender como os edifícios em altura se distribuem pelas cidades brasileiras e quais instrumentos ajudam a explicar essa configuração. 

A pesquisa identificou três padrões principais de verticalização: concentrado, disperso e linear. Eles não representam categorias rígidas e podem coexistir ou se suceder ao longo do desenvolvimento de uma cidade. Uma área inicialmente concentrada pode se expandir pelo território, corredores podem surgir a partir de uma centralidade existente e processos inicialmente dispersos podem, ao longo do tempo, formar novas concentrações. 

O interesse está justamente nessas combinações. A verticalização não acontece da mesma maneira em todas as cidades e tampouco permanece estática. Sua distribuição muda conforme o território se transforma, o mercado direciona novos investimentos e os instrumentos de planejamento permitem ou induzem determinadas formas de ocupação. 

Ainda assim, a comparação revelou uma característica recorrente: a dispersão aparece com frequência no processo de verticalização. Edifícios em altura avançam gradualmente sobre diferentes bairros e setores urbanos, mesmo em contextos bastante distintos.

Essa recorrência dificilmente pode ser explicada apenas pelas particularidades locais ou pelo mercado imobiliário. Parte da resposta está na maneira como o planejamento urbano lida com o tempo. 

Os planos distribuem direitos de construir imaginando uma transformação relativamente contínua do território, mas a cidade real se modifica de forma fragmentada, conforme aparecem oportunidades de mercado, substituição de lotes e novos ciclos imobiliários. O resultado é uma verticalização que avança por partes, nem sempre acompanhando uma lógica territorial previamente definida. 

A cidade prevista no papel, portanto, raramente se completa como imaginada. Enquanto o potencial construtivo pode estar distribuído de forma relativamente homogênea, sua materialização acontece de maneira desigual e descontínua. É nesse intervalo entre o que o plano permite e o que efetivamente se constrói que boa parte da forma urbana brasileira acaba sendo produzida.  

Essa lógica ajuda a explicar outra característica recorrente. Apesar das diferenças entre as cidades analisadas, seus skylines apresentam semelhanças importantes. A repetição de edifícios prismáticos e parâmetros semelhantes produz horizontes relativamente contínuos em cidades com geografias, climas e histórias muito diferentes.

Verticalização é uma palavra difícil de traduzir justamente porque não descreve apenas um tipo de edifício, mas uma experiência urbana específica, em que edifício, mercado, regulação e território fazem parte do mesmo processo. 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Mestre em Arquitetura e Urbanismo (UniRitter/Mackenzie) e Doutor em Arquitetura (UFRGS). Membro do Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) e líder do CTBUH Brazil Chapter. ([email protected])
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