Por que ler um clássico

2 de junho de 2026

Publicado originalmente na Itália em 1972, e lançado pela primeira vez no Brasil em 1990, “As cidades invisíveis”, de Italo Calvino (1923-1985), atravessa gerações como um livro que se renova a cada leitura. Não por acaso, tornou-se presença constante em cursos de arquitetura, urbanismo, filosofia, literatura e história. Mais de meio século depois de chegar às livrarias, a obra permanece, elevada à condição de “clássico” naquela definição que o próprio Calvino consagrou em “Por que ler os clássicos” (1981): “É um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”

Partindo de personagens históricos reais, Calvino constrói uma narrativa ficcional e profundamente imaginativa. O veneziano Marco Polo e mongol Kublai Khan existiram; o diálogo entre eles, no entanto, é fruto da criação literária do autor. É justamente nessa tensão entre história e fantasia que reside uma das forças da obra, atravessada por imagens, tecnologias e inquietações que a aproximam muito mais de nós do que do século 13, período em que seus personagens viveram.

Em “As cidades invisíveis”, Kublai Khan surge como o imperador que busca compreender os territórios sob seu domínio. Marco Polo, em contraponto, é aquele que viaja, observa, imagina e narra esse território. Sua tarefa é apresentar a Kublai Khan cidades que ele governa politicamente, porém jamais conheceu de fato. Para isso, em vez de mapas ou descrições objetivas, Marco Polo oferece relatos que misturam cenários físicos, hábitos, símbolos, afetos e lembranças.

Nesse sentido, os trechos dedicados aos encontros entre os dois personagens são fundamentais. No início, Marco Polo e Kublai Khan sequer compartilham a mesma língua, e a relação entre eles é marcada por desconfiança e incompreensão. Aos poucos, entretanto, passam a se entender melhor, transformando a descrição das cidades em uma conversa sobre memória, desejo e imaginação.

Ainda assim, embora a construção dessa relação seja fundamental, certamente o corpo principal do livro é dedicado às cidades. Cada uma recebe um nome fictício e descrição singular, que pode partir tanto de sua forma física e concreta quanto de seus habitantes, costumes ou acontecimentos. Apesar disso, existe algo de “borrado” em todas elas. As descrições lembram sonhos dos quais guardamos apenas fragmentos. Ao final, as cidades acabam se parecendo um pouco, ou compartilhando certa generalidade, ou ainda múltiplas facetas de uma mesma experiência urbana.

Talvez por isso “As cidades invisíveis” permita modos tão diversos de leitura. Pode-se acompanhar linearmente o desenvolvimento do diálogo entre Marco Polo e Kublai Khan junto à narrativa das cidades. Mas, ao mesmo tempo, pode-se retornar às cidades por sua categoria ou mesmo ler a narrativa aos poucos, como uma obra de cabeceira. Em qualquer caso, a experiência é profundamente subjetiva: cada leitor será atravessado por cidades distintas, identificando nelas referências próprias.

Essa abertura vem da sensibilidade que estrutura o livro. Ao narrar suas cidades, Marco Polo fala sempre, em alguma medida, de Veneza. Sua cidade de origem aparece dispersa nas descrições, mesmo quando não é nomeada. Com o leitor acontece algo semelhante. Pode ser São Paulo, Cidade do México, Lisboa ou nenhuma delas em particular — de qualquer maneira, algo nos toca. Assim, “As cidades invisíveis” talvez seja menos uma obra sobre cidades imaginárias e mais um livro sobre como aprendemos a ler as cidades.

Heloisa Loureiro Escudeiro
Coordenadora-adjunta do Núcleo Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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