Por que Florianópolis cresce e Porto Alegre encolhe?

14 de julho de 2026

Florianópolis e Porto Alegre, apesar de próximas geograficamente, apresentam dinâmicas demográficas diferentes. A capital catarinense vem registrando crescimento populacional constante nas últimas décadas, enquanto Porto Alegre já demonstrou sinais de estagnação nos resultados do último Censo. Entre 2010 e 2022, a população de Florianópolis cresceu cerca de 27%, enquanto a de Porto Alegre decresceu cerca de 5%.

A explicação intuitiva para essa diferença seria a capacidade de atração de novos moradores: Florianópolis atrairia muito mais gente do que Porto Alegre. Porém, os dados mostram que o cenário é mais complexo.

O Censo Demográfico de 2022 fornece o total de residentes de um município que haviam se mudado para lá há menos de 10 anos, vindos de outra localidade. Esse dado mostra um cenário diferente do esperado: as entradas migratórias estimadas para as duas cidades entre 2012 e 2022 são quase iguais, cerca de 156 mil para Florianópolis e 160 mil para Porto Alegre. Então, de onde vem a grande diferença nas trajetórias populacionais?

Uma primeira hipótese seria o crescimento vegetativo (diferença entre nascimentos e óbitos). Mas os dados do Ministério da Saúde descartam essa explicação, pois, entre 2012 e 2022, o crescimento vegetativo de Porto Alegre (+52 mil pessoas) foi maior do que o de Florianópolis (+35 mil). Portanto, o maior crescimento populacional da capital catarinense não pode ser explicado pelo fato de ali estarem nascendo mais crianças.

Voltamos à questão migratória. Como o saldo migratório é a diferença entre o crescimento total da população e o crescimento vegetativo, podemos estimar o balanço entre as pessoas que chegaram a cada município e aquelas que saíram. Esse resultado mostra que, enquanto Florianópolis conseguiu atrair mais pessoas do que perdeu (saldo de +64 mil), Porto Alegre teve desempenho contrário (saldo de −116 mil).

Se as entradas foram similares e os saldos são tão diferentes, a conclusão é que a diferença entre as duas cidades está no número de pessoas que deixaram cada município. As estimativas indicam saídas de cerca de 93 mil pessoas de Florianópolis contra 275 mil de Porto Alegre.

Há ainda uma diferença qualitativa na origem de quem chega. O Censo identifica o estado de onde vieram as pessoas que migraram para cada município, e os perfis são distintos. Florianópolis apresentou um alto percentual de gaúchos se mudando para lá (27,7% das entradas) e apresentou baixa dependência da migração do interior do próprio estado. Inclusive, pode-se especular que grande parte de quem sai da cidade se dirige às vizinhas São José e Palhoça em busca de habitação e custo de vida mais baratos. Ou seja, a “perda” de população é, na prática, uma redistribuição dentro da mesma aglomeração urbana.

Porto Alegre, por outro lado, atrai majoritariamente pessoas do interior do Rio Grande do Sul (64,6% das entradas) e uma pequena parcela de residentes de Santa Catarina (7,2%), indicando um menor poder de atração de residentes de outros estados. E esses migrantes não são suficientes para repor a quantidade de pessoas que deixa a capital.

Esse contraste coloca as duas capitais diante de agendas opostas. Enquanto Florianópolis ainda planeja sua expansão, Porto Alegre já pode começar a pensar em seu decrescimento populacional. A expectativa é que, nos próximos anos, o crescimento vegetativo da capital gaúcha gradativamente se reduza, até chegar o momento em que a população total começará a diminuir. É provável, porém, que essa queda não ocorra de forma tão rápida. Como mostrou o artigo Urban Decline and Durable Housing, o estoque habitacional de uma cidade é algo que permanece existindo mesmo quando falta gente para morar nele. A tendência é que o valor dessas moradias diminua aos poucos – pela depreciação dos imóveis e pela escassez de compradores com poder de compra – e que essa queda de preços atraia pessoas de outras localidades que, com a redução dos custos, passam a poder arcar com a moradia na capital. Essa dinâmica desacelera o decrescimento, mas não reverte o cenário no longo prazo, ela apenas dá mais tempo para a cidade pensar no que fazer diante dessa nova situação.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

Compartilhar:

VER MAIS COLUNAS