Por que continuamos a falar sobre cidades?

13 de maio de 2026

Nos últimos anos, nós, colunistas, pesquisadores e editores do Caos Planejado, temos escrito regularmente sobre nossas inquietações em relação às cidades e aos espaços urbanos. Ao mesmo tempo, é evidente que os avanços nesse campo ainda acontecem de forma lenta e muitas vezes insuficiente diante da velocidade das transformações urbanas. Então surge uma pergunta inevitável: por que continuamos insistindo nesse tema?

Sem medo de errar, somos apaixonados por esse assunto. Cada um, dentro de sua área de atuação, procura contribuir para melhorar as cidades brasileiras, seja pesquisando, escrevendo, projetando, analisando políticas públicas ou simplesmente provocando reflexões. Ao longo do tempo, trouxemos exemplos positivos e negativos, casos nacionais e internacionais, experiências bem-sucedidas e erros históricos que ainda insistimos em repetir. Tudo isso para ilustrar debates que consideramos fundamentais para quem deseja cidades mais humanas, acessíveis e equilibradas.

Mas o que deveríamos fazer diante disso? Desistir? Como somos insistentes — e, no meu caso, bastante exigente com esse tema — seguimos em frente. A cada texto, postagem ou vídeo abordamos pequenas questões urbanas que, muitas vezes sem percebermos, vão se conectando e formando uma rede de reflexões sobre a cidade e seus espaços. 

Nesse ponto, acredito cada vez mais na importância da microescala urbana, tema sobre o qual venho trabalhando há bastante tempo. Precisamos olhar mais para a rua, para a praça, para o lote e para a quadra. Uma pequena praça pode transformar a dinâmica de um bairro. Uma edificação integrada à rua pode gerar vitalidade urbana e melhorar a convivência. Da mesma forma, decisões equivocadas podem tornar espaços hostis e afastar as pessoas da vida urbana. A cidade é construída também pelos detalhes, e muitas vezes são eles que determinam a qualidade do cotidiano.

Ao caminharmos pelas ruas, nem sempre percebemos como determinados espaços influenciam diretamente nossa relação com a cidade. Existem ruas agradáveis, arborizadas e vivas, onde as pessoas permanecem e convivem. Outras, mesmo modernas, parecem vazias e sem identidade. Essas diferenças não acontecem por acaso; são resultado das escolhas urbanísticas feitas ao longo do tempo.

Essas discussões mantêm acesa a esperança de dias melhores para nossas cidades. Como já escrevi anteriormente, discutir urbanismo desde a escola pode ampliar o número de pessoas preparadas para participar desse debate e compreender melhor os espaços onde vivem. Quanto mais pessoas observarem e entenderem a cidade, maiores serão as possibilidades de construirmos ambientes urbanos mais humanos e equilibrados.

Todos os meses tenho o compromisso — de que gosto muito, embora às vezes me falte inspiração — de escrever pequenos textos dedicados exclusivamente ao tema das cidades. E, apesar das dificuldades, algumas experiências mostram que esse esforço vale a pena. Recentemente, um colega comentou que um texto meu dialogava diretamente com questões que ele vinha desenvolvendo em seus projetos. Conversamos sobre o assunto, caminhamos por algumas ruas e vislumbramos possíveis soluções urbanas. 

Talvez não tenhamos dimensão do alcance do que falamos. Mas cada uma dessas interações alimenta nossa empreitada de pensar cidades melhores. Que possamos ter mais canais como este, mais espaços de debate e mais pessoas interessadas em observar criticamente o espaço urbano. Quem sabe, em um futuro próximo, possamos caminhar pelas ruas e encontrar mais boas soluções do que problemas.

Enquanto for possível, estarei aqui escrevendo sobre cidades.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteto pela Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ (1991), é Mestre em Arquitetura (2010) e Doutor em Arquitetura (2014) pelo PROARQ da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ. É professor da Universidade Veiga de Almeida e do Mestrado Profissional no Programa de Pós-graduação em Projeto e Patrimônio da UFRJ. Sócio do escritório DCArquitetura e consultor de Planejamento Urbano. Autor de quatro livros sobre as transformações urbanas da cidade do Rio de Janeiro.
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