O que acontece quando um território é transformado sem ouvir quem vive nele?
Cresci entendendo que, nas favelas, os espaços livres nunca são apenas espaços vazios. Quando eu era criança, o quintal da minha casa deixou de ser apenas um terreno baldio e se transformou, aos poucos, em um grande lixão. O lixo acumulado trazia ratos, baratas e todos os impactos da precariedade que atravessavam o cotidiano da nossa casa. Ainda assim, aquele lugar também era o nosso ponto de encontro. Era ali que eu e outras crianças brincávamos, corríamos e inventávamos histórias. Mesmo marcado pelo abandono, aquele território carregava vida, encontros e possibilidades que só quem vive nesses contextos consegue enxergar.
Com o passar dos anos, um muro começou a ser erguido ao redor do terreno. De repente, o espaço que fazia parte da nossa rotina desapareceu diante dos nossos olhos. Restou apenas uma viela estreita, como um resquício do que um dia chamamos de quintal. Enquanto a construção avançava, crescia também a minha curiosidade de criança. Eu queria entender o que estava acontecendo ali, o que seria construído naquele espaço que, de alguma forma, também nos pertencia. Minha mãe me alertava para não tentar atravessar o muro, mas a curiosidade falou mais alto. Subi usando pregos enferrujados como apoio e, lá do alto, vi os primeiros sinais da transformação. Antes que pudesse compreender o cenário, escorreguei. A queda deixou uma cicatriz no meu pé que permanece até hoje.
O edifício construído naquele terreno continua existindo e impactando a comunidade de diferentes maneiras. Mas o que mais me marcou naquela experiência não foi exatamente a obra em si, e sim a forma como ela aconteceu: sem diálogo, sem escuta e sem que os moradores que conviviam diariamente com aquele território soubessem o que estava por vir. Aquela ausência de participação revelou algo que eu só entenderia anos depois: quando as transformações urbanas acontecem sem envolver a comunidade, perde-se a oportunidade de construir soluções mais sensíveis às dinâmicas locais e aos afetos de quem vive o território todos os dias.
Talvez tenha sido essa experiência que despertou em mim a atenção para os espaços livres das favelas, inclusive aqueles considerados residuais ou invisíveis para quem olha de fora. São nesses lugares que a vida comunitária acontece, que as crianças brincam, que os encontros se constroem e que a memória coletiva permanece viva. Pensar a cidade exige também pensar em processos participativos reais, em que moradores deixem de ser espectadores das intervenções e passem a ocupar um lugar central nas decisões sobre o futuro de seus próprios territórios. Afinal, quem vive o espaço diariamente também produz conhecimento sobre ele.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.