Para quê preservar?

16 de outubro de 2026

Recentemente, escutei em uma palestra a história do Pateo do Collegio, conjunto arquitetônico histórico erguido no local de fundação da cidade de São Paulo em 1554. Vou pular boa parte da história – que é bem interessante, diga-se – e chegar aonde interessa para os propósitos deste texto.

Após uma forte chuva em 1896, parte do telhado de um dos prédios desabou. Em 1953, o conjunto foi completamente demolido, para ser reinaugurado em 1979, com uma aparência similar à da edificação original. Esse é o chamado “falso histórico”: uma reconstrução de um prédio antigo de modo a recuperar seus elementos arquitetônicos, mesmo que décadas ou séculos depois da inauguração.

Outro caso que me veio à cabeça naquela palestra foi o Estádio do Maracanã. Antes da Copa do Mundo de 2014, boa parte do espaço foi demolida e reconstruída. Sua marquise de concreto armado, por exemplo, foi totalmente substituída por uma cobertura de outro material. O Maracanã era tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o que significa que, em teoria, não poderia – ou não deveria – sofrer intervenções como essa.

Temos casos distintos. O Pateo do Collegio não resistiu às condições climáticas e o Maracanã sucumbiu às decisões do ser humano. Situações de tombamento e as características das intervenções recentes também diferem. Entretanto, em ambos os casos, cabe a mesma pergunta: o que foi de fato preservado?

Para além da discussão do falso histórico, o Pateo original não se manteve, mas o simbolismo da fundação de São Paulo, sim? O Maracanã foi bastante modificado, mas seguiu sendo um exemplar simbólico e histórico do esporte brasileiro?

Caso as respostas tenham sido “sim”, lanço mais uma indagação: para quê, então, preservar o patrimônio arquitetônico? Não bastaria registrá-lo em fotos e livros?

Aí que está. Defendo que não.

Entendo que há casos em que estruturas tombadas precisam ser demolidas por segurança – como foi o caso do Pateo do Collegio. E também entendo que o tombamento de edifícios não necessariamente implica a sua manutenção e preservação. Mas, se não tombarmos e conservamos edifícios de valor histórico e arquitetônico e, se, no limite, começarmos a modificá-los inteiramente ou até se os demolirmos em série, só sobrarão justamente fotos e livros.

A arquitetura e a cidade não são feitas só pelos registros. Elas são parte de uma experiência e de uma imersão. Muitas vezes só damos valor a elas – e, por tabela, à nossa história e aos símbolos da nossa sociedade – quando as vivenciamos em carne e osso. Ou melhor, em concreto, taipa ou outros materiais.

Preservar o patrimônio é manter as cidades de pé para além da sua materialidade imediata. Preservar é permitir que a gente sinta, entenda e pertença às cidades.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Doutor em Planejamento Urbano e Regional pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Arquiteto e urbanista formado na FAUUSP, cursou o mestrado em Planejamento Urbano pela Universidade de Columbia (EUA). Lá, ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação com o maior comprometimento com justiça social. Também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo entre 2014 e 2016, com atuação na urbanização de sete favelas das zonas Sul e Oeste da cidade.
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