Palestra Itália

20 de janeiro de 2026

Uma área relativamente pequena na Zona Oeste de São Paulo, que já concentra quatro equipamentos de grande porte (Sesc Pompeia, Shopping Bourbon, Allianz Parque e Shopping West Plaza), está prestes a ganhar um novo (e enorme) empreendimento. Na esquina da Avenida Pompeia com a Rua Palestra Itália será construído pelo Grupo Zaffari um complexo multiuso de mais de 40 mil m² com unidades habitacionais, lojas e lajes corporativas. Além disso, em 2026 devem ser inauguradas na região estações da Linha 6-Laranja do Metrô, que ligará a Brasilândia, na Zona Norte, à região central da capital.

Se, por um lado, o novo empreendimento deve atrair mais pessoas e pode agravar os problemas relacionados aos congestionamentos, por outro, com a inauguração das novas estações de metrô, será mais fácil chegar à região sem a necessidade do carro. A maior oferta de transporte público de qualidade (a região já conta com a Estação Palmeiras-Barra Funda da Linha 2-Vermelha), por sinal, poderia ser acompanhada por medidas que desestimulassem o uso do automóvel por ali.

Em episódio do São Paulo nas Alturas, tive a satisfação de conversar com o Raul Juste Lores sobre os desafios e as oportunidades de desenvolvimento urbano da região. A Pompeia é um bairro com alta densidade populacional, vias arborizadas e bastante comércio de rua, mas que vê desaparecer essa vitalidade exatamente nos arredores do Shopping Bourbon (também do Grupo Zaffari), uma “caixa” praticamente sem aberturas, sem lojas voltadas para a rua, cercado por muros, grades e onde se chega, predominantemente, de carro.

Um primeiro alerta, assim, é para que os mesmos erros do Shopping Bourbon não sejam repetidos no novo complexo multiuso. Melhor ainda seria se o Grupo Zaffari aproveitasse o momento para também requalificar o Bourbon, trocando as grades na Rua Palestra Itália por uma fachada ativa com lojas, vitrines e restaurantes; criando entradas mais amplas, convidativas e amigáveis para os pedestres; trocando vagas de estacionamento no térreo por mais espaços para as pessoas; enfim, tornando as fachadas mais bonitas e, quem sabe, escondendo aquelas medonhas rampas de estacionamento em caracol.

O Allianz Parque, por sua vez, atrai um enorme público em dias de jogos e shows, o que impulsiona o comércio local, além de transformar as ruas em festa. Dificuldade de acesso, congestionamentos e excesso de barulho, por outro lado, prejudicam quem vive e trabalha na região. Estudo do economista Rodger Campos investigou o efeito líquido das externalidades sobre o preço dos imóveis residenciais no entorno do estádio, com estimativas que sugerem queda nos preços dos apartamentos após sua inauguração em 2014.

Logo, parece razoável defender que a administração do estádio implemente intervenções urbanas que busquem compensar esses efeitos negativos. No vídeo do São Paulo das Alturas, falamos das oportunidades de transformar a Rua Palestra Itália e arredores em espaços de permanência e convivência, com melhor arborização, jardins de chuva, calçadas mais largas, mobiliário urbano e até parquinho temático para as crianças.

Por fim, vale mencionar que mesmo o Sesc Pompeia, um verdadeiro ícone arquitetônico de São Paulo, carece de uma entrada para pedestres pela Avenida Pompeia no lugar das atuais grades, de forma a se integrar melhor ao entorno (a única entrada hoje é pela Rua Clélia, mais distante, inclusive, da futura Estação do metrô).

Para quem gosta de história, vale lembrar que o antigo Parque Antártica, onde hoje se encontram o Allianz Parque e o clube social do Palmeiras, foi um dos primeiros espaços públicos de lazer na cidade, inaugurado em 1902. A região ganharia muito se recuperasse um pouco dessa antiga vocação e todos esses grandes equipamentos estivessem melhor conectados entre si e com a rua, em uma espécie de “Boulevar Palestra Itália”, no melhor espírito “Todos somos um” que levou o Palmeiras a uma das fases mais vitoriosas de sua história. Avanti, (Rua) Palestra Itália!

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Economista pela FEA-USP, mestre em economia pela EESP-FGV e tem mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas e estudos econômicos. Mora em São Paulo e caminhar pela cidade é um de seus hobbies favoritos ([email protected]).
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