Uma área relativamente pequena na Zona Oeste de São Paulo, que já concentra quatro equipamentos de grande porte (Sesc Pompeia, Shopping Bourbon, Allianz Parque e Shopping West Plaza), está prestes a ganhar um novo (e enorme) empreendimento. Na esquina da Avenida Pompeia com a Rua Palestra Itália será construído pelo Grupo Zaffari um complexo multiuso de mais de 40 mil m² com unidades habitacionais, lojas e lajes corporativas. Além disso, em 2026 devem ser inauguradas na região estações da Linha 6-Laranja do Metrô, que ligará a Brasilândia, na Zona Norte, à região central da capital.
Se, por um lado, o novo empreendimento deve atrair mais pessoas e pode agravar os problemas relacionados aos congestionamentos, por outro, com a inauguração das novas estações de metrô, será mais fácil chegar à região sem a necessidade do carro. A maior oferta de transporte público de qualidade (a região já conta com a Estação Palmeiras-Barra Funda da Linha 2-Vermelha), por sinal, poderia ser acompanhada por medidas que desestimulassem o uso do automóvel por ali.
Em episódio do São Paulo nas Alturas, tive a satisfação de conversar com o Raul Juste Lores sobre os desafios e as oportunidades de desenvolvimento urbano da região. A Pompeia é um bairro com alta densidade populacional, vias arborizadas e bastante comércio de rua, mas que vê desaparecer essa vitalidade exatamente nos arredores do Shopping Bourbon (também do Grupo Zaffari), uma “caixa” praticamente sem aberturas, sem lojas voltadas para a rua, cercado por muros, grades e onde se chega, predominantemente, de carro.
Um primeiro alerta, assim, é para que os mesmos erros do Shopping Bourbon não sejam repetidos no novo complexo multiuso. Melhor ainda seria se o Grupo Zaffari aproveitasse o momento para também requalificar o Bourbon, trocando as grades na Rua Palestra Itália por uma fachada ativa com lojas, vitrines e restaurantes; criando entradas mais amplas, convidativas e amigáveis para os pedestres; trocando vagas de estacionamento no térreo por mais espaços para as pessoas; enfim, tornando as fachadas mais bonitas e, quem sabe, escondendo aquelas medonhas rampas de estacionamento em caracol.
O Allianz Parque, por sua vez, atrai um enorme público em dias de jogos e shows, o que impulsiona o comércio local, além de transformar as ruas em festa. Dificuldade de acesso, congestionamentos e excesso de barulho, por outro lado, prejudicam quem vive e trabalha na região. Estudo do economista Rodger Campos investigou o efeito líquido das externalidades sobre o preço dos imóveis residenciais no entorno do estádio, com estimativas que sugerem queda nos preços dos apartamentos após sua inauguração em 2014.
Logo, parece razoável defender que a administração do estádio implemente intervenções urbanas que busquem compensar esses efeitos negativos. No vídeo do São Paulo das Alturas, falamos das oportunidades de transformar a Rua Palestra Itália e arredores em espaços de permanência e convivência, com melhor arborização, jardins de chuva, calçadas mais largas, mobiliário urbano e até parquinho temático para as crianças.
Por fim, vale mencionar que mesmo o Sesc Pompeia, um verdadeiro ícone arquitetônico de São Paulo, carece de uma entrada para pedestres pela Avenida Pompeia no lugar das atuais grades, de forma a se integrar melhor ao entorno (a única entrada hoje é pela Rua Clélia, mais distante, inclusive, da futura Estação do metrô).
Para quem gosta de história, vale lembrar que o antigo Parque Antártica, onde hoje se encontram o Allianz Parque e o clube social do Palmeiras, foi um dos primeiros espaços públicos de lazer na cidade, inaugurado em 1902. A região ganharia muito se recuperasse um pouco dessa antiga vocação e todos esses grandes equipamentos estivessem melhor conectados entre si e com a rua, em uma espécie de “Boulevar Palestra Itália”, no melhor espírito “Todos somos um” que levou o Palmeiras a uma das fases mais vitoriosas de sua história. Avanti, (Rua) Palestra Itália!
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.