Os prós e contras das nossas escolhas

18 de setembro de 2026

Não é nenhum absurdo a afirmação de que toda escolha implica consequências. Pois bem. Para ilustrar esse fato, os economistas costumam usar um termo em inglês: trade-off.

Um exemplo típico seria: Joãozinho tem 50 reais para gastar em um fim de semana. Com esse valor, ele pode comprar uma pizza ou um ingresso e uma pipoca para o cinema. Se optar pela pizza, não poderá ir ao cinema; se escolher o cinema, terá que abrir mão da pizza. Se quiser muito a comida, ele poderá saciar seu desejo, mas não poderá assistir à estreia de sua franquia favorita nas telonas. E vice-versa.

O trade-off está implícito na ideia de que o orçamento de Joãozinho é limitado e que ele terá que escolher como gastar seu dinheiro, sendo que o benefício de uma das opções será sacrificado para que o jovem aproveite os efeitos da outra escolha.

Nas políticas públicas, também temos trade-offs. Um que frequentemente aflora no cotidiano paulistano diz respeito ao metrô. Recentemente, um grupo de moradores da Vila Madalena se manifestou contra a construção de uma estação de metrô no meio do bairro. Há algumas semanas, os moradores de outra região, os Jardins, opuseram-se à instalação de novas estações no miolo da área residencial ao invés de se localizarem sob a Avenida Faria Lima.

Creio eu que o trade-off aqui está nas implicações que uma estação do metrô pode gerar em uma área urbana. Por um lado, os imóveis se valorizam, ampliando o patrimônio e a receita a partir de aluguéis do lado do proprietário. A macroacessibilidade no entorno do equipamento também se amplia, encurtando o tempo de deslocamento de quem mora e trabalha nos arredores, além de conectar mais eficientemente os bairros ao restante da região metropolitana.

Por outro lado, quem paga aluguel ou deseja comprar uma unidade residencial ali pode ter que buscar outra localização mais barata. Além disso, existe a questão de que novas estações atrairiam pessoas de fora, configurando o que há alguns anos uma moradora de Higienópolis chamou de “gente diferenciada” ao se referir aos efeitos da construção de uma estação no miolo do bairro. Isso sem falar nas desapropriações de imóveis para as obras, que retiram moradores e que em certos casos se dão de forma violenta. Ou nos desvios no tráfego de ônibus e carros, no barulho e nas possíveis rachaduras nas casas do entorno.

É evidente que há camadas subjetivas nesse tipo de trade-off. Além disso, há que se considerar: a decisão de se construir uma estação de metrô em um bairro diz respeito principalmente aos seus moradores ou aos usuários do transporte público de toda a região metropolitana? Em outras palavras, o sacrifício maior deveria ser dos moradores locais, que ganhariam um bairro mais caro e, na visão deles, menos tranquilo, ou dos passageiros que moram em outras regiões e que não poderiam acessar a área para trabalhar, para lazer e para frequentar equipamentos como hospitais, universidades etc. caso o projeto metroviário não fosse adiante?

A questão que coloco é que alguns ganham e alguns perdem com determinadas políticas. Entretanto, determinadas ações podem favorecer um grupo de moradores no miolo de um bairro de alta renda em detrimento de centenas de milhares de passageiros que se deslocam São Paulo afora. Os critérios por trás dos trade-offs são diversos, e eu reforço que um deles pode ser o número de pessoas impactadas não somente na área de incidência direta da política, como em toda uma região metropolitana.

Assim como Joãozinho não pode ter tudo, os moradores da Vila Madalena, dos Jardins e de Higienópolis, além dos usuários do sistema de trens de alta capacidade, também não podem. A questão é que em todos os casos, as escolhas têm consequências e impactos e alguns vão sair ganhando enquanto outros podem perder.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Doutor em Planejamento Urbano e Regional pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Arquiteto e urbanista formado na FAUUSP, cursou o mestrado em Planejamento Urbano pela Universidade de Columbia (EUA). Lá, ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação com o maior comprometimento com justiça social. Também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo entre 2014 e 2016, com atuação na urbanização de sete favelas das zonas Sul e Oeste da cidade.
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