Falava no texto anterior que “ninguém escolhe nada feio ou ruim, de qualidade inferior, deliberada ou conscientemente. O que é feio, o que é ruim é, também, impopular. O que é feio ou ruim, sobra, encalha“.
Mas, passeando por Belo Horizonte, vou precisar me corrigir e fazer um adendo a essa afirmação. Talvez, quando tratamos de arquitetura e design, as pessoas escolham o que é feio por uma outra razão que, até então, não tinha me ocorrido: o que é feio predomina com uma intensidade tal, que o observador perde a capacidade de distinguir o que é bom do que é ruim.
Talvez o volume seja tão avassalador que a paisagem seja percebida como uma única massa de prédios igualmente feios, a ponto de anestesiar o transeunte. Culpa dos Arquitetos eu sei que não é; afinal, não faltam em nossa cidade profissionais talentosos e de bom gosto, competentes e criteriosos.
Tive a sorte de trabalhar, desde os meus primeiros estágios, com vários Arquitetos competentíssimos, ao mesmo tempo em que admirava e estudava a produção de muitos outros de igual competência. De lá para cá, tenho certeza que o mercado viu crescer a quantidade de Arquitetos competentes que, somados aos já competentes da velha guarda, deveriam ter gerado uma paisagem diferente, bacana.
Mas, estranhamente, boa parte dessa notável produção não foi capaz de alterar — para melhor — a paisagem de nossa cidade, nem de influenciar — positivamente — a grande produção imobiliária.
Onde “raios” está, então, essa produção?
Uma parte da resposta aponta para condomínios e suas casas, para a arquitetura comercial das lojas e restaurantes, outra para o design de interiores das empresas e residências. A outra tenta achar algum fator em comum que ajude a explicar a dificuldade de encontrar, dentre os prédios produzidos nos últimos 45 anos, bons exemplares, de valor equivalente à produção anterior ao início da década de 1980.
O quadro tem uma explicação, que não passa pela falta de bons Arquitetos, nem de imobilidade no mercado imobiliário, mas por uma questão transversal: a legislação urbana implantada em 1976, que consagra uma guinada na forma de ocupação dos lotes, e que ainda prevalece, a despeito dos resultados colhidos.
Vou ficar meio “técnico” aqui, mas, ao substituir o potencial construtivo ditado pelo gabarito (pela largura da rua) por afastamentos frontal e laterais obrigatórios, a legislação provoca, a um só tempo, a redução do potencial construtivo e da densidade possível, e induz tipologias que passam a demandar — de forma insaciável, podemos afirmar — terrenos cada vez maiores.
Em termos de imagem urbana, a coisa também fica ruim, com a substituição das fachadas ativas (lojas ao nível da rua, alinhados no passeio) por muros cegos, gradis escondendo jardins feios e mal cuidados, poucos prédios em cada quarteirão, passeios mais vazios, cidade mais suja e insegura.
Perdemos a densidade, a segurança e a vitalidade dos quarteirões e dos bairros.
Perderam a Arquitetura, o cenário, os bairros e a cidade.
Perdemos todos.
Atualmente, é possível encontrar belos exemplares das safras mais recentes, exclusivamente em produções miúdas, prédios de pequeno porte, desafiando as leis do mercado imobiliário e a legislação urbana vigente.
Talvez esses exemplares e esses Arquitetos representem um renascimento da Arquitetura e da beleza em Belo Horizonte; talvez sejam os últimos suspiros de um movimento de resistência.
Num caso ou noutro, a nós cabe influenciar os agentes públicos e representantes eleitos para que se aprofundem nessa questão, e para que possamos superar as escolhas erradas e resgatar o bom senso.
Senão pela Arquitetura e pela beleza, que seja pelos resultados produzidos nos últimos 45 anos. Afinal, as novas gerações não têm qualquer responsabilidade com os erros das gerações anteriores, certo?
#FicaADica
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.