Ondas de calor seguidas de frio intenso no verão: como iremos caminhar nas cidades em 2026?
17 de março de 2026Você com certeza deve ter estranhado as mudanças bruscas de temperaturas nos primeiros meses do ano, uma hora calor de derreter, noutra um frio intenso. Em janeiro, em São Paulo, os termômetros oscilaram de 35 °C para 15 °C na mesma semana, pegando muita gente desprevenida em pleno verão. Afinal, o que podemos esperar do clima ao longo deste ano? É possível reverter a situação?
Essas questões estiveram no centro dos debates da COP 30, realizada em Belém, onde estivemos presentes em eventos com foco em Cidades Resilientes e Caminhabilidade. Os debates destacaram, sobretudo, a capacidade dos municípios de enfrentar desastres e responder aos desafios impostos pelos eventos climáticos extremos por meio de soluções sustentáveis, focadas na mobilidade ativa.
Para que isso seja possível, a cooperação entre diferentes setores da sociedade é fundamental, resultando em cidades mais preparadas e adaptadas, reforçando a urgência da caminhabilidade como estratégia de mitigação e adaptação climática, como ressaltou a nossa diretora Leticia Sabino durante a COP 30.
Dentre as mudanças necessárias estão: investir em ruas e bairros conectados, seguros e pensados para as pessoas — elementos essenciais tanto para o enfrentamento da crise climática quanto para o cuidado no dia a dia.
O que tem sido feito hoje?
Defendemos que promover cidades caminháveis é uma das soluções mais eficazes e acessíveis para enfrentar a crise climática. Tornar um território mais amigável para quem caminha, além de ser uma medida que não exige recursos exuberantes, fortalece a resiliência urbana, reduz desigualdades e melhora a qualidade de vida. Como mostra o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, IPCC (2022), órgão científico da ONU: investir em cidades caminháveis pode reduzir em cerca de 25% as emissões de gases de efeito estufa até 2050.
Além disso, esses territórios respondem melhor aos eventos extremos ao reduzir áreas impermeáveis. Ou seja, tirar o asfalto e o espaço para os carros para ampliar áreas verdes e corredores verdes, implantar jardins de chuva que ajudam no controle de enchentes e aumentar a segurança contra alagamentos, além de estimular atividades ao ar livre e promover o bem-estar físico e mental da população.
Referência mundial
Paris é um dos melhores exemplos que temos hoje: ela passou de uma cidade que enfrentava altos níveis de poluição e milhares de mortes prematuras para uma referência em sustentabilidade urbana.
Dentre as iniciativas, a capital francesa tem priorizado modos sustentáveis e reduzido o uso do carro, com 1.400 km de ciclovias implantadas desde 2001. Além disso, realizou a remoção de 50 mil vagas de estacionamento para substituir por áreas verdes e parklets e criou o programa “Rues aux Écoles”, que transformou mais de 300 ruas escolares em áreas caminháveis, sendo 100 com árvores e jardins, ampliando o espaço para pedestres, reduzindo ilhas de calor e aumentando a segurança das crianças.
Os resultados são evidentes: entre 2005 e 2023, Paris reduziu em 55% as emissões de PM2,5 e em 50% as de NO₂. Hoje, a caminhada já é o principal modo de deslocamento na cidade, representando 53,5% das viagens, seguida pelo transporte público (30%), bicicletas (11,2%) e carros (4,3%).
Todas essas abordagens estão detalhadas na publicação “Cidades caminháveis: solução para a crise climática”, um material inédito desenvolvido por nós, que reúne dados, evidências e propostas de políticas públicas que conectam caminhabilidade, clima e justiça social.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.