Olhe para cima

4 de agosto de 2026

Em 14 de junho, dois helicópteros colidiram sobre o Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro. Seis pessoas morreram e os destroços incendiaram um pátio com dezenas de carros elétricos na Avenida das Américas. Bastaram duas aeronaves no céu de um bairro para produzir a tragédia. Esse mesmo céu se prepara para receber, nos próximos anos, milhares de voos de drones por dia — entregas, inspeções, policiamento, filmagens, monitoramento climático — e, na sequência, os veículos elétricos de decolagem vertical. A densidade que matou seis pessoas no Rio será multiplicada por ordens de grandeza, sobre bairros cujos moradores nunca foram chamados a discutir o assunto.  

São Paulo oferece a segunda cena. Quem pousa em Congonhas atravessa em baixa altitude o centro expandido: Pinheiros, Faria Lima, Vila Olímpia — o corredor corporativo mais denso do país. Um drone irregular nessa rota de aproximação paralisa o aeroporto e cria risco real de colisão sobre centenas de milhares de pessoas. O aeroporto convive com escolas, torres, avenidas e eventos; a rota de pouso é parte do cotidiano de quem vive sob ela.  

Planejamos o solo com minúcia e deixamos a baixa altitude sem projeto. Conheci essa disputa entre os anos de 2015 e 2024. Como chefe da Casa Civil do Ceará, e depois como vice-prefeito de Fortaleza e presidente do instituto de pesquisa e planejamento da cidade, recebi por anos a demanda da construção civil para reduzir o cone aéreo do aeroporto — cada metro de gabarito liberado valia milhões em potencial construtivo. O céu baixo já era objeto de política municipal, disputado lote a lote, muito antes dos drones. A novidade está em transformar essa camada, até aqui mera restrição ao que se constrói, em via: corredor logístico, plataforma de vigilância, infraestrutura de defesa civil capaz de mapear encostas, monitorar enchentes e localizar pessoas depois de eventos extremos.  

Aqui aparece o nó regulatório. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) cuidam da aeronave, do espaço aéreo e das rotas — competência federal, correta e necessária. Mas nenhum órgão federal terá capilaridade para fiscalizar milhares de voos diários rente aos telhados de 5.569 municípios. E boa parte do que a operação exige é decisão urbana: onde pousar e decolar em áreas públicas, onde admitir vertiportos, quais zonas são sensíveis, como integrar drones à defesa civil, quem guarda as imagens captadas sobre o território, que ruído cada bairro aceita. Os planos diretores discutem adensamento, mobilidade e clima; os códigos de posturas regulam mesa na calçada e publicidade. Nenhum deles pergunta como governar a camada aérea entre os telhados e as rotas da aviação.  

O mesmo drone que localiza vítimas de uma enchente pode mapear rotinas, ocupações e manifestações — e a fronteira entre proteger e controlar dependerá de quem define o que a inteligência artificial procura sobre os territórios vulneráveis. A entrega que promete eficiência exige corredor, ponto de pouso, seguro e prioridade no uso do céu. Decidir quem opera essa camada — plataformas, hospitais, defesa civil, condomínios — é decisão política, e hoje ela vem sendo tomada por omissão.  

O desafio está em politizar a chegada dessa tecnologia antes que o mercado, o medo ou o próximo acidente ocupem o vazio. As cidades brasileiras já descobriram o subsolo. Precisam descobrir, antes que o tráfego se adense sobre suas cabeças, que o céu também virou território.   

Élcio Batista
Coordenador do Programa Cidade +2ºC do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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