As rajadas de vento de mais de 100 km/h que atingiram o litoral do Sudeste na semana passada são, encarando de maneira franca e realista, um mau presságio.
Houve fatalidades e estragos materiais. Uma pessoa morreu atingida por uma árvore em Santos e duas faleceram após um muro cair sobre elas no Rio de Janeiro, onde houve blecautes e onde voos e serviços de trens e metrô chegaram a ser interrompidos.
Não está evidente a relação entre o vendaval e o El Niño, fenômeno bastante discutido recentemente. Mas outro velho conhecido pode estar relacionado. Cientistas já sinalizaram que as mudanças climáticas têm intensificado eventos atmosféricos extremos e desastres climáticos em geral nos últimos anos. Tempestades, tornados, inundações e ondas de calor são exemplos do que já vem acontecendo.
A pergunta que fica é: nossas cidades estão preparadas?
Arrisco dizer que nenhuma está. Vejamos Nova York, atingida em 2012 pelo Furacão Sandy, que matou mais de 40 pessoas, danificou quase 70 mil casas e inundou estações de metrô. Em 2024, cheias de proporções históricas atingiram 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios, do Rio Grande do Sul, matando 183 pessoas. Em 2026, ondas de calor em uma frequência inesperada já mataram quase 10 mil alemães e mais de 2 mil pessoas no Reino Unido, além de estarem facilitando incêndios florestais no Velho Continente.
Poderíamos ficar citando casos e mais casos. Entretanto, já parece estar claro o tamanho do desafio no mundo, em especial nas grandes aglomerações urbanas, mais densas e em muitos casos estabelecidas em áreas bastante suscetíveis a inundações e deslizamentos, por exemplo.
Quando olhamos para as populações mais vulneráveis dentro dessas aglomerações, o desafio é ainda mais dramático. Favelas podem registrar temperaturas até 15ºC maiores do que regiões próximas em dias quentes. A existência de inadequações habitacionais como ausência de janelas e de ventilação cruzada pode piorar ainda mais a sensação térmica em casas nesses assentamentos. Isso sem falar nas comunidades em áreas de várzea, como o Jardim Pantanal, sempre afetado pelas cheias no Rio Tietê.
Obviamente, não se trata de culpar as pessoas que precisaram morar em condições de risco. Ou as famílias mundo afora que não têm condições de arcarem com aparelhos de ar condicionado. Ou ainda quem se mudou para cidades em áreas de risco em busca de condições melhores de vida.
Todos precisamos, entretanto, nos mobilizar. Seja consumindo de maneira menos predatória, seja votando em quem se comprometa com a causa, seja pressionando os gestores públicos já empossados a agirem mais e melhor, investindo recursos e elaborando planos de redução de riscos, dentre outras medidas possíveis.
Nova York parece estar mais preparada para eventos climáticos extremos em 2026 do que estava em 2012. O Rio Grande do Sul, traumatizado com as cheias de 2024, também parece estar encarando de maneira mais realista o futuro sombrio que se aproxima. A Europa já vem se mobilizando há anos em torno da agenda climática.
E o Brasil? Precisamos falar e agir mais para diminuirmos os impactos futuros de desastres climáticos urbanos. Afinal, o vento já levou, ou melhor, soprou. E trouxe muitos prejuízos. E não vai deixar de soprar.
Soa alarmista?
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.