O sol inunda a sala

15 de janeiro de 2026

O ano era 1990 e a principal câmara de eco dos modismos e dos assuntos do momento eram a televisão aberta e suas novelas. Dona Genu, personagem de novela interpretada por Marília Pêra, era pobre, ficou rica e começou a frequentar eventos com gente sofisticada, com gostos e conversas diferentes. A saída foi decorar algumas frases de efeito, sem qualquer conteúdo e substância. Dentre essas, a mais marcante era “o sol inunda a sala”.

“O sol inunda a sala” atesta o óbvio, mas não diz nada, enquanto pavimenta a entrada numa roda de conversa. Não exibe talentos, mas também não expõe a falta de conhecimentos do orador. Apenas uma superficialidade difícil de ser superada.

Num país onde a totalidade das legislações urbanísticas espelha uma visão elitizada e distorcida do que é uma cidade, promovendo o espalhamento e a baixa densidade, os fatos, as evidências e o estado geral das nossas cidades provam que, contra cegueira ideológica e os grilhões mentais do alinhamento político, não há remédio potente o bastante, sequer a própria realidade.

E diante de um quadro onde nem a realidade nem o óbvio são capazes de redirecionar o pensamento e as ações, a única expressão que me vem à mente sobre as conferências metropolitanas para revisão dos Planos Diretores (e a legislação que sai das conferências) é “o sol inunda a sala”.

“O sol inunda a sala” para baixo aproveitamento dos terrenos, “o sol inunda a sala” para afastamentos obrigatórios, “o sol inunda a sala” para mais asfalto do que calçada, “o sol inunda a sala” para a prevalência dos carros sobre pessoas, “o sol inunda a sala” para o espalhamento, “o sol inunda a sala” para a baixa densidade, “o sol inunda a sala” para debates se ciclovia sim ou ciclovia não, “o sol inunda a sala” para quem acha que favelas são um fato da vida e que os moradores formam uma comunidade feliz, “o sol inunda a sala” para os impostos escorchantes sobre a cadeia produtiva dos imóveis, “o sol inunda a sala” para os modelos de financiamento obsoletos e antiprodutivos, “o sol inunda a sala” para a SELIC que torna especular mais vantajoso do que produzir, “o sol inunda a sala” para as prefeituras que fazem pouco caso do metrô subterrâneo e o VLT, “o sol inunda a sala” para quem acha aceitável que qualquer pessoa precise morar a 3 horas de seu trabalho, de um hospital, dos espaços de lazer, dos polos educacionais ou da cena cultural.

Enfim, “o sol inunda a sala” para todas as pessoas, profissionais, gestores públicos e representantes eleitos que acham que as nossas cidades vão bem, que os críticos não devem ter lugar à mesa, que os debates precisam ser controlados, que a realidade pode ser moldada, e que as evidências são apenas um estado de espírito.

Para 2026, desejo que “o sol inunde a sala”, mas que todos percebam o sol, a sala, a janela por onde o sol adentra e, claro, o calor que o sol traz.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteto e Urbanista, sócio da incorporadora CASAMIRADOR e fundador do INSTITUTO CALÇADA. Acredita que as cidades são a coisa mais inteligente que a humanidade já criou. ([email protected])
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