Voltei a Curitiba após 15 anos e encontrei exatamente o mesmo lugar. Limpo, bem arborizado, organização, lógica e bom senso para todo lado que se olhe. As calçadas funcionam. As pessoas respeitam sinais de trânsito. Não há pixação nem lixo nas ruas. Os parques aproveitam vazios urbanos com inteligência. O BRT segue eficiente. Tudo funciona. Tudo segue, igual.
A cidade não exala tensão. As pessoas não se movem em aflição, olhando para os lados, esperando que algo de ruim aconteça. A cidade não incomoda. Curitiba, como qualquer outra metrópole, tem muitas, muitas obras, muitos prédios em construção, muitos empreendimentos imobiliários, mas lá a coisa acontece diferente, mais espalhada, por todos os bairros, sem aquela sensação de uma infestação de gafanhotos consumindo o bairro da moda, um por vez.
Nos acostumamos a pensar que a evolução de uma metrópole seja medida por grandes saltos, mudanças profundas, grandes obras, grandes planos, grandes anúncios. Em Curitiba, ao contrário, a percepção é de um movimento lento, mas contínuo. De um plano sólido, de clareza em relação aos objetivos, de metas que são propostas e, quando alcançadas, são recalculadas, empurrando as melhorias para o próximo degrau. Os riscos são calculados, e os ganhos medidos.
Mas, e se o sucesso de Curitiba não pudesse ser explicado, exclusivamente, pelo urbanismo, pelo IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba) e pelas gestões Jaime Lerner? E se, para atingir esse nível de potência e eficiência, outros fatores precisassem “jogar junto”?
Quem sabe, sejam dois outros fatores catalisando o resultado: um nível educacional mais alto (comprovado pela primeira colocação no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, agora) e uma política urbana que não muda — apenas evolui — pelos últimos 40 anos.
A educação que falo não é aquela que enche cérebro de conteúdo. É a que sedimenta valores. Ética, civilidade, pertencimento. É a educação que transforma buzina em constrangimento, que faz alguém recolher seu lixo por respeito ao próximo, e que se dedica a cada projeto, apenas porque o certo é sempre fazer o melhor. É o que faz o motoqueiro respeitar a faixa não porque a lei obriga, mas porque entendeu que a cidade é sua casa também. Que leva a população a perceber os espaços públicos como patrimônio de todos, e não como terra de ninguém.
A outra ponta é ainda mais radical: uma política urbana que respeita a constância, e que evita gestos grandiosos. Não a indecisão, mas a coerência ao longo do tempo. Jaime Lerner trouxe planejamento urbano para o centro das decisões municipais há mais de 40 anos. E desde então, mesmo com a alternância de prefeitos e partidos, crises políticas e econômicas, a visão não mudou. A cidade continua sendo tratada como um organismo vivo, não como um ativo político. Adensamento dosado, transporte público privilegiado, vazios urbanos aproveitados, infraestrutura acompanhando necessidades reais.
Curitiba é uma cidade que decidiu ser funcional, viável, pensada para gente viver dentro dela. Sem glamour. Sem espetáculo. Sem a síndrome do projeto que vira outdoor de campanha eleitoral. Consistência, persistência, foco, compromisso.
Não é tão difícil, é?
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.