Quando uma grande jazida mineral é descoberta, a primeira pergunta costuma ser econômica: quantos empregos serão gerados, quanto será arrecadado, quanto o PIB vai crescer. São perguntas legítimas, mas insuficientes. A pergunta que deveria orientar prefeitos, empresários e sociedade civil é outra: o que a cidade quer ser quando o ouro acabar?
A economia de recursos naturais tem um nome para esse risco: a “maldição dos recursos”, conceito consolidado por Jeffrey Sachs e Andrew Warner nos anos 1990. Regiões abundantes em minério ou petróleo frequentemente crescem menos do que economias com menor dotação natural, não por fatalidade geológica, mas por escolhas de política pública.
Estive recentemente em Paracatu, em Minas Gerais, responsável por cerca de 22% da produção brasileira de ouro. A mineração transformou a economia local, mas o mais interessante não está na mina, e sim nas escolhas feitas acima do solo. Paracatu converteu parte da riqueza mineral em outros ativos: valorizou seu centro histórico, tombado pelo IPHAN, fortaleceu o turismo cultural e consolidou-se como polo do agronegócio no Cerrado mineiro.
Essa é a lição que uma cidade mineradora pode oferecer: recursos naturais são temporários, desenvolvimento urbano precisa ser permanente. Edward Glaeser lembra, em “O Triunfo das Cidades”, que a prosperidade urbana depende da capacidade de transformar riqueza em capital humano, inovação e produtividade — ativos que não se esgotam com o uso.
É impossível observar Paracatu sem pensar em Currais Novos, no Rio Grande do Norte. Com a Mina Borborema em operação, o Seridó potiguar inicia um novo ciclo de mineração de ouro, com expectativa de mais arrecadação, empregos e fortalecimento econômico — uma oportunidade rara. Mas oportunidades não produzem desenvolvimento sozinhas; elas produzem apenas uma janela para que ele seja construído ou não.
Os royalties não deveriam ser tratados como receita extraordinária para equilibrar orçamentos de curto prazo, e sim como oportunidade para financiar o que segue gerando valor décadas depois: educação, saneamento, infraestrutura, patrimônio histórico, turismo e agropecuária.
O planejamento urbano é parte central dessa equação. Grandes empreendimentos atraem população e pressionam o mercado imobiliário. Sem planejamento, o ciclo resulta em expansão desordenada, moradia mais cara e serviços sobrecarregados. Com planejamento, financia uma cidade mais eficiente e preparada para o futuro.
Toda mina tem prazo de validade. Uma boa escola não. Uma infraestrutura bem construída não. Um centro histórico preservado não. Uma economia diversificada não. A diferença entre cidades que atravessam esse ciclo fortalecidas e cidades que o atravessam apenas enriquecidas, para depois empobrecer, está na governança.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.