Sobre fronteiras (ou bordas) suaves
É natural uma loja ter vitrine. Quanto mais transparente sua fachada, mais podemos ver os produtos expostos ao passar pela calçada: roupas, sapatos, presentes. A gente pode diminuir o passo ou parar um instante para ver a vitrine, e isso nos faz demorar um pouquinho no espaço público. Se a gente se interessar, entra para ver melhor, para escolher.
Algumas lojas não têm vitrine. Elas simplesmente eliminam suas portas durante seu horário de funcionamento, e colocam produtos no seu limite, bem ao nosso alcance (por isso a vendedora normalmente fica também por ali, de olho). Para vê-los e tocá-los, a gente nem precisa entrar: fica na calçada mesmo e, assim, ocupa o espaço público por mais tempo. Mercearias e verdurões fazem isso. A gente fica lá fora, escolhendo as frutas, os legumes, e depois entra só para pagar.
Tanto lojas com vitrine quanto lojas abertas às vezes colocam balcões, estantes, mesas ou araras com produtos do lado de fora, para ampliar sua área de exposição, estendendo sua atividade comercial para o espaço público, fazendo as pessoas demorarem-se ainda mais. Bares e restaurantes, com suas mesas na calçada, são o exemplo clássico dessas práticas. O arquiteto Jan Gehl diz que elas seriam uma área de transição benéfica e convidativa para a vida pública, e as denomina fronteiras (ou bordas) suaves (soft edges). Assim, as calçadas, ao invés de só terem gente passando, terão também gente permanecendo, e isso implica, no mínimo, que elas mereçam um bom dimensionamento.
Esse tipo de ocupação é interessante, desde que não bloqueie o fluxo das pessoas e respeite combinados que devem ser criados para não atrapalhar a vida de ninguém. Já vi lojas que penduram produtos (enfeites de natal, bicicletas infantis) no teto da marquise à frente, de tal forma que as pessoas um pouco mais altas acham que vão bater a cabeça e passam meio abaixadas. Já vi lojas colocando colchões de casal na calçada, obrigando os pedestres a seguir andando pela pista.
No entanto, quando a coisa é feita de forma aceitável, os benefícios para a vitalidade urbana podem ser muitos, especialmente se estabelecimentos que estendem suas atividades para os espaços públicos ficarem abertos à noite, ajudando a ampliar a sensação de segurança.
O arranjo desses elementos externos pode-nos trazer diferentes percepções. Se forem colocados no limite da calçada, ao invés de em frente à vitrine, quando passarmos entre os dois teremos a impressão de estar, de certa forma, já dentro da loja. É preciso apenas ter cuidado para que isso não represente uma privatização do espaço público. São elementos temporários, que devem depois ser recolhidos.
Qualquer tipo de estabelecimento pode ter uma fronteira suave, e a gente às vezes pode se surpreender com as pessoas que ela pode atrair. Uma vez estava fazendo compras numa loja de materiais de construção e vi o vendedor, do balcão, chamando a atenção de alguém que estava na calçada. Ouvi uns risinhos, uns passinhos correndo, e me virei. Não tinha ninguém. “Elas vão voltar”, disse o rapaz, divertindo-se. E voltaram. Eram três crianças que estavam estourando o plástico bolha de um rolo enorme que estava exposto ali fora.
Fiquei com vontade de me juntar a elas. Afinal, como se sabe, plástico bolha é mais legal que muita gente.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.