O que sobra para as crianças? Espaços residuais e o direito de brincar

25 de março de 2026

Entre vielas, escadarias e casas que crescem ao longo do tempo, a infância nas favelas sempre encontrou formas de existir. Havia, ainda que de maneira precária, espaços livres onde o brincar acontecia: terrenos vazios, becos mais largos, áreas onde as crianças corriam, se encontravam e criavam suas próprias regras. Hoje, esses espaços vêm desaparecendo, ocupados por novas construções, marcados pela insegurança ou simplesmente abandonados. O que antes era improvisado, mas possível, agora se torna cada vez mais raro. E, com isso, o brincar, que deveria ser parte central da infância, vai sendo limitado, muitas vezes substituído pelo confinamento dentro de casa.

A segurança é um dos principais fatores que mudam essa realidade. Não é só a violência, mas um conjunto de situações do dia a dia: motos e carros circulando em vielas estreitas, falta de iluminação, áreas degradadas, acúmulo de lixo, ausência de espaços pensados para o encontro. Quando o território não oferece condições mínimas, a rua deixa de ser extensão da casa e passa a ser evitada. Nesse contexto, a criança perde mais do que o espaço físico, perde a chance de explorar, de conviver, de ganhar autonomia. O brincar, reconhecido como um direito fundamental por organizações como o UNICEF, não é apenas lazer, faz parte do desenvolvimento cognitivo, emocional e social.

Ainda assim, mesmo diante da escassez, o território continua criando caminhos. Em muitos lugares, o brincar ressurge onde parece não haver espaço, em um trecho de escadaria mais largo, em frente a uma casa, em áreas que por algumas horas deixam de ser passagem e se tornam encontro. São usos temporários, improvisados, mas que mostram uma potência importante, a capacidade das crianças e da comunidade de ressignificar o espaço. Olhar para esses usos cotidianos é fundamental, porque eles indicam não só a falta, mas também possibilidades concretas de transformação a partir do que já existe.

Ao mesmo tempo, a redução das áreas verdes e do contato com a natureza agrava esse cenário. A infância, que antes também se construía na relação com o ambiente, com a terra, com as árvores, com a água, hoje acontece em territórios cada vez mais densos e impermeabilizados. A relação com o espaço público se enfraquece, assim como os vínculos entre vizinhos e familiares. Melhorar essa realidade passa por um conjunto de ações: recuperar espaços esquecidos, criar áreas de brincar próximas das casas, garantir iluminação, organizar melhor a circulação e envolver a comunidade no cuidado desses lugares. No fundo, a questão é simples: crianças precisam poder brincar perto de casa, com segurança, convivendo com outras pessoas e com o território onde vivem.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta e ativista urbana, pós graduada em urbanismo social e habitação e cidade, mestre em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano, Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo, atua com a gestão de projetos e ações sociais em territórios periféricos no Instituto Fazendinhando.
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