Bem-vindos a 2026. Como acontece todos os anos neste período, milhões de pessoas se deslocam para aproveitar as férias em cidades, em sua maioria litorâneas. O movimento é previsível, recorrente e amplamente anunciado. Ainda assim, ele segue sendo tratado como um evento extraordinário. Trânsito saturado, redes de saneamento sobrecarregadas, pressão sobre serviços públicos e a sensação generalizada de colapso urbano passam a dominar o debate.
Esse fenômeno revela um padrão claro. As cidades que entram em colapso no verão são, em grande parte, cidades sazonais. O termo não se refere apenas ao turismo, mas a um modelo urbano específico. São cidades que passam boa parte do ano operando abaixo da sua capacidade máxima e que, ao atingirem sua ocupação plena por algumas semanas, revelam fragilidades estruturais acumuladas ao longo do tempo. O verão não cria o problema. Ele apenas o torna visível.
Durante nove ou dez meses, essas cidades aparentam funcionar bem. O tráfego flui, os sistemas de infraestrutura operam sem grande esforço e a demanda por serviços públicos se mantém controlada. Esse funcionamento, no entanto, não é sinônimo de eficiência urbana. Ele é resultado direto da subutilização. A cidade não foi pensada para operar em plenitude, mas para suportar um cotidiano esvaziado. Quando a população se aproxima da sua capacidade real, o sistema entra em colapso.
A questão está na forma como essas cidades foram historicamente concebidas. Normalmente litorâneas, foram tratadas como cidades de exceção. Espaços de veraneio, de segunda residência, de ocupação temporária. Elas não têm medo de construir, pois constroem todos os anos. O receio real é outro. Tornarem-se cidades permanentes, com população estável, demandas contínuas e responsabilidades urbanas que vão além da temporada. A partir dessa lógica, constitui-se um urbanismo defensivo, baseado na contenção. A infraestrutura é subdimensionada, os investimentos são postergados e a cidade, por vezes, passa a operar em um estado de improviso.
Esse modelo gera um paradoxo difícil de romper. Não se investe em infraestrutura porque a demanda é considerada temporária. A demanda permanece temporária porque a cidade não oferece condições de permanência. A cidade fica presa em um ciclo de baixa ambição urbana, sempre reagindo à alta temporada, nunca se antecipando a ela.
Cidades de moradia precisam operar bem todos os dias do ano e isso muda completamente a lógica do investimento urbano. O saneamento deixa de ser custo e passa a ser base estrutural. A mobilidade deixa de ser improviso e passa a ser sistema. Planejar para a permanência significa aceitar a cidade em sua plenitude, e não apenas tolerá-la nos momentos de pico.
A alta temporada funciona como um verdadeiro teste de estresse urbano. Ela expõe onde a cidade foi subdimensionada, onde o planejamento ignorou a sua própria dinâmica e onde decisões estruturais foram sistematicamente adiadas. Culpar o verão é um atalho confortável, mas insuficiente para enfrentar o problema real.
O verdadeiro dilema das cidades sazonais não é lidar com turistas. É decidir se querem continuar sendo cidades de exceção ou se estão dispostas a se planejar como cidades de fato.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.