Em maio de 2026, o geógrafo e intelectual brasileiro Milton Santos completaria 100 anos. Seu legado, desconhecido por muitos de fora da academia, deve ser celebrado.
Autor de mais de 40 livros e de mais de 240 artigos científicos, o intelectual de família negra e de classe média começa sua trajetória acadêmica em 1948, quando se forma em direito na atual Universidade Federal da Bahia. Durante a ditadura militar, Santos deixa seu cargo de professor de geografia na mesma instituição e passa 13 anos fazendo pesquisa e dando aulas no exterior. Em 1983, já de volta ao Brasil, torna-se professor na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), onde ficaria até sua morte, em 2001.
Milton Santos esteve à frente de seu tempo. Uma de suas obras mais relevantes na minha opinião, o livro O espaço dividido (1979), já rompia há 50 anos com a ideia dualista e simplista de que o espaço é fatiado em uma porção formal e outra informal. Para ele, a economia urbana e a produção do espaço se interconectam, e o moderno e o atrasado coexistem e dependem um do outro. Ou seja, os circuitos econômicos, chamados pelo autor de “inferior” e “superior”, se complementam.
Em termos concretos, as favelas, por exemplo, seriam territórios marcados pela pobreza, mas, ao mesmo tempo, alimentariam com mão de obra a industrialização no Brasil, que representaria o que tínhamos de mais avançado economicamente nos anos 1970.
Outro tema bastante importante e atual no trabalho de Santos é a cidadania. Em O espaço do cidadão (1987), o professor lança uma provocação: em espaços organizados pelo mercado, o cidadão deixa de ser cidadão e se torna um consumidor.
O autor também analisa as desigualdades territoriais no Brasil, destacando a primazia “técnica-científica-informacional” da Região Concentrada (grosso modo, o Sul e o Sudeste). Para ele e para a socióloga Ana Clara Torres Ribeiro, o território é mais do que um elemento inerte; ele é mediador e interage com os atores sociais que o transformam e que são transformados por ele.
Seria humanamente impossível destacar todos os conceitos e todas as propostas de Milton Santos. E lembro ao leitor que não é necessário concordar com todos os pontos defendidos por ele. Mas acredito ser inegável a sua contribuição intelectual, que mobiliza pesquisadores no Brasil e no mundo até hoje.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.