Um preocupante fenômeno parece ganhar força em algumas cidades brasileiras: a tentativa de afastar do cotidiano tudo o que seja capaz de lembrar que envelhecer faz parte da vida. O recente movimento de moradores do City Lapa, em São Paulo, contrário à presença de casas de repouso na região, é um exemplo emblemático. Embora a discussão esteja revestida de argumentos urbanísticos, jurídicos e imobiliários, ela revela algo mais profundo, levando ao questionamento sobre qual tipo de cidade estamos construindo — e, principalmente, para quem.
Ao longo das últimas décadas, consolidou-se um modelo urbano que celebra a juventude, a produtividade e o consumo. São bairros planejados para aqueles que, em um atropelado dia a dia, trabalham, dirigem e compram. Mas o que acontece quando seus moradores envelhecem? A resposta tem sido desconfortável. Em vez de adaptar as cidades às transformações demográficas, muitas vezes criam-se mecanismos que empurram a velhice para longe do campo de visão.
É um processo silencioso, que quase nunca ocorre por meio de uma expulsão explícita. Ele se manifesta quando faltam serviços de cuidado próximos de casa, quando desaparecem os espaços de convivência, quando as calçadas se tornam obstáculos e quando a lógica imobiliária passa a enxergar determinados grupos como incompatíveis com a imagem desejada para um bairro. Um modelo urbano que não exclui formalmente, mas torna a permanência cada vez mais difícil para aqueles que já não se encaixam no padrão exaltado na sociedade.
O paradoxo é evidente: o Brasil envelhece rapidamente, no entanto, seguimos planejando cidades como se a velhice fosse uma exceção estatística. Não é. Ela é o futuro da população brasileira. Talvez por isso valha observar o que países que envelheceram antes estão fazendo. Japão, Dinamarca, Holanda e Singapura passaram a adotar estratégias que fortalecem o chamado aging in place, conceito que defende algo aparentemente simples: o direito de permanecer.
O que isso quer dizer exatamente? Permanecer na rua onde se construiu uma história. Permanecer próximo dos amigos, dos vizinhos, dos lugares que compõem a memória afetiva de uma vida inteira. A ciência já demonstrou que esse pertencimento produz benefícios concretos. Pessoas que mantêm vínculos comunitários tendem a apresentar melhores indicadores de saúde física, mental e cognitiva. A permanência reduz o isolamento, fortalece redes de apoio e contribui para a autonomia por mais tempo.
Contudo, há algo ainda mais importante. Não se trata apenas do que os idosos ganham quando permanecem, mas do que a cidade perde quando eles desaparecem. Um ambiente urbano sem idosos relflete uma cidade que perdeu parte de sua vocação mais natural: a de promover a convivência. É uma cidade onde as gerações deixam de se encontrar, de aprender umas com as outras e de compartilhar experiências. Nesse sentido, não é nada além de um lugar de passagem.
Talvez o verdadeiro indicador de desenvolvimento urbano não seja o valor do metro quadrado nem a quantidade de novos empreendimentos lançados. Talvez seja a capacidade de um bairro permitir que uma pessoa viva ali aos 30, aos 50 e aos 80 anos sem precisar romper seus vínculos para continuar existindo.
No fundo, a discussão não se resume a casas de repouso, ela é sobre inclusão.
Gabriela Vasconcelos
Coordenadora de Projetos do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, é economista, urbanista social e mestranda em Saúde Pública na FSP/USP
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.