Fui a Clichy-Batignolles e não quero voltar
Existe um desenho divertido do artista Malachi Ray Rempen chamado “O mapa de qualquer cidade europeia”. Claro que ele não representa todas as cidades europeias, mas com certeza muitas delas e, certamente, Paris.
Nele, há um centro histórico, que se expande em ruas mais regulares e avenidas, e edificações marcantes, símbolos e referências para quem percorre a cidade: estação de trem, catedral, torre. Há um “conjunto habitacional distópico”, com um prédio solto na quadra e um estacionamento de superfície, representando os bairros monofuncionais de DNA modernista. Há ainda dois edifícios, provavelmente espelhados, no “distrito de ternos, gravatas e janelas” – os estéreis bairros de negócios que vieram em seguida.
O que o mapa não mostra, mas as “caixas e guindastes” e a fábrica ajudam a antecipar, é o que vem acontecendo há menos tempo. No que eram áreas portuárias, distritos industriais, grandes infraestruturas abandonadas, novos bairros vêm surgindo. E eles também se parecem com outros bairros desse tipo, em outras cidades.
O ecobairro Clichy-Batignolles é um deles. Feito em uma área ferroviária desativada, iniciou-se em 2001 e foi dado como concluído ano passado. Foi concebido e executado como uma ZAC (Zone d’Aménagement Concerté, ou Zona de Desenvolvimento Conjunto), onde o governo teve bastante controle do processo, e divulgado como a mais importante operação de urbanismo realizada pela gestão Anne Hidalgo (2014-2026). Com seus edifícios seguindo a cartilha das ações de baixo impacto ambiental e com um grande projeto de revegetação e criação de um parque, ganhou vários prêmios de inovação e sustentabilidade.
Estive lá. Desci numa estação de metrô próxima, em uma parte mais antiga do 17º arrondissement (distrito) e fui caminhando. Quando cheguei, foi como se eu tivesse saído de Paris. Me lembrei de certos lugares que visitei em Copenhague, Oslo, Milão… e andei o tempo todo com uma sensação de déjà vu.
Esses novos bairros têm muitas qualidades. Diferente dos bairros modernistas, onde os edifícios não têm nenhum compromisso em configurar o espaço público, o que resulta em áreas livres amorfas e residuais, seus prédios definem bem ruas, praças e parques.
Diferente dos bairros modernistas ou de negócios, eles tentam não ser monofuncionais e têm edifícios com comércio no térreo. Têm a preocupação de não se tornarem barreiras, e costumam favorecer a permeabilidade entre si e as preexistências ao redor, fazendo conexões, mantendo quadras de bom tamanho para estimular os deslocamentos ativos. Desenham ruas para bicicletas e bondes. Seus espaços públicos têm bom calçamento, mobiliário urbano bem desenhado, arborização. Seus parques são impecáveis. A preocupação ambiental se faz presente no visível e no invisível ao transeunte.
Apesar disso, algumas coisas não mudaram do século 20 pra cá, e vi isso bem em Clichy-Batignolles. Os prédios são enormes, às vezes ocupando vários lados de uma quadra, e isso significa pelo menos uma coisa muito grave: pouquíssimas portas para a rua. No lado nordeste do bairro, os edifícios são basicamente residenciais, alguns possuindo grades, portas de serviço e grandes entradas de garagem. Em geral, os térreos são monótonos e banais, feitos principalmente de paredes cegas, mesmo que a arquitetura seja interessante, do primeiro pavimento para cima. Há térreos compostos por instituições públicas, como escolas de diferentes níveis, com entradas estranhas e estéreis. Não dá prazer nenhum caminhar por lá.
O lado sudoeste, um pouco mais animadinho, possui mais edifícios de uso misto. Mas, ainda assim, prédios grandes com os mesmos problemas de relação público/privado que os do outro lado. As lojas térreas, gigantescas, quando não estão vazias, estão ocupadas por supermercados ou restaurantes. A única diversidade comercial que vi foi numa espécie de shopping, onde, sabemos, isso é bem controlado. No bairro inteiro não vi onde poderia caber qualquer comércio de vizinhança.
Havia pouquíssima gente nas ruas, apesar de o bairro ter 7.500 habitantes, ser sábado, o dia estar lindo e estarmos numa cidade em que a cultura de vida nas calçadas é muito grande.
Enquanto estive lá, pensei em como é legal poder ler no tecido da cidade a história do pensamento urbanístico, a materialização das preocupações e do espírito do tempo. E como é legal também reconhecer isso em outras cidades. O que não é legal é ter a impressão de que – pelo menos no que tange aos espaços públicos e à experiência do pedestre – a parte mais bacana das cidades ainda é aquela que existia antes dos “conjuntos habitacionais distópicos” chegarem.
Ao final, pensei: “tá visto!” E voltei, feliz, para Paris.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.