Para desenhar cidades melhores é preciso conhecê-las por dentro.
Acredito que para desenhar cidades melhores é preciso conhecê-las por dentro. Entre outras coisas, isso significa percorrê-las de todas as formas, especialmente aquelas mais utilizadas pela população: a pé, de bicicleta, de transporte público.
Por isso, desde 2013, proponho um exercício numa disciplina optativa que ministro anualmente: o Diário do(a) pedestre. A proposta é passar uma semana inteira realizando todas as atividades – incluindo lazer – apenas de transporte público ou por meio da mobilidade ativa, e registrar tempos de espera, de deslocamento, gastos, condições do trajeto, estados de espírito, situações vividas.
Quando comecei com essa ideia, a maioria dos nossos estudantes se deslocava de carro. Hoje, a maioria se desloca de transporte público. O exercício é útil para ambos, e os depoimentos colhidos (aos quais agradeço) ajudam a ilustrá-lo.
Para quem se desloca de transporte público, o registro e a observação sistemática permitem desnaturalizar situações encontradas no dia a dia:
“Pela primeira vez me dei conta de que não tinha calçada da parada até o prédio do meu estágio.”
Para quem tem carro, a experiência permite reconhecer seu privilégio, sentir na pele a estrutura que a cidade oferece aos pedestres e ciclistas, reconhecer que o tempo não é o mesmo para todo mundo, a depender do seu meio de transporte, e conhecer realmente o lugar onde se vive:
“Não pegava metrô há tanto tempo que nem sabia que tinha um vagão só para mulheres.”
“Abdiquei da academia por conta da logística.”
“Eu nunca tinha andado numa passagem subterrânea.”
“Eu nunca tinha pegado ônibus na rodoviária.”
“Minha relação com o tempo e com a cidade mudou completamente!”
As opiniões sobre o exercício variam, entre quem tem carro…
“Gostei muito deste trabalho, ter contato com a cidade, com as pessoas. Amei não gastar com gasolina.”
“Não gastei com gasolina, mas gastei com tempo e saúde mental.”
…e entre quem não tem:
“Eu gostei bastante deste trabalho, porque já é a minha vida.”
“Eu pensei: gente, não vai ter graça. É a minha vida.” (Mas teve. Sempre tem.)
Percebe-se o quanto a mobilidade influencia a busca por trabalho/estágio…
“Eu tinha um estágio mas larguei: era muito difícil chegar lá de transporte público.”
“Se eu não tivesse carro, não teria me candidatado àquela vaga. Aliás, era pré-requisito.”
…ou a manutenção de relacionamentos:
“Esta semana eu percebi que a gente só namora porque tem carro.”
As estudantes falam de seus medos e estratégias:
“Se você é mulher, andar à noite não é opção: é risco!”
“Eu me sinto uma gestante, andando com a mochila na frente.”
Nota-se a falta de transporte para voltar para casa à noite/de madrugada:
“Tive problemas pra voltar para casa às 3h da manhã do domingo, depois da balada.”
Quem já anda de ônibus menciona prós e contras:
“Tem um grupo de whatsapp do pessoal do ônibus, a gente planeja o café da manhã às sextas-feiras!”
“Acho ônibus muito terapêutico. Quando estou no ônibus, descanso a minha mente.”
“Não dá pra ter flexibilidade na rotina.”
“O horário nunca é respeitado, fico à mercê do transporte.”
Há efeitos colaterais positivos:
“Minha mãe me disse: desde que você começou a pedalar, eu passei a respeitar os ciclistas.”
Todos ficam mais atentos à vida ao seu redor:
“Já vi um casal discutindo em Libras por videochamada!”
“Um cachorro correu atrás de mim, achei muito deselegante da parte dele!”
“Não teve um dia em que eu não tenha parado para falar com alguém na rua, ou alguém tenha parado para falar comigo.”
“Queria agradecer aos ambulantes, que não nos deixam morrer de fome e de sede.”
E todos têm a mesma opinião sobre a infraestrutura que a cidade oferece para os pedestres:
“A calçada…? A calçada fica com Deus!”
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Esse exercício recebeu o Prêmio CAU/DF Docentes – Práticas Inovadoras de Ensino 2023