O BRT é solução urgente para todas as metrópoles de países em desenvolvimento

30 de janeiro de 2026

Jaime Lerner sempre nos lembrava das “escolhas estratégicas” — o cobertor será sempre curto e o dilema será: alguns quilômetros de metrô, trem ou VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) versus centenas quilômetros de BRT (Bus Rapid Transit) atendendo vastos territórios urbanos.

Não há dúvida, o metrô é o melhor meio de transporte coletivo — rápido, eficiente, confortável. Megalópoles como São Paulo e Rio de Janeiro de fato necessitam dele. Porém, face aos altíssimos custos de implantação, da longa maturação e de gigantescos subsídios, não é possível sacrificar gerações inteiras que dependem dos ônibus. Mesmo nestas duas grandes metrópoles, há a necessidade de redes complementares de BRTs.

O BRT, como sistema de rápida implantação para médias e grandes demandas e combinando estações elevadas, pagamento pré-pago e ônibus de alta capacidade em vias exclusivas, é uma das soluções inquestionáveis de mobilidade urbana para as metrópoles. Ele tem baixo custo relativo, 10 a 50 vezes menos que o metrô, e de 4 a 6 vezes menos que o VLT.  São muitos os exemplos de sistemas sobre trilhos implantados em todos os continentes, transportando demandas abaixo de um BRT a custos estratosféricos.

Todo BRT é usualmente uma rede “tronco-alimentadora”; isto é, ele parte de uma consolidação e/ou racionalização planejada das rotas que otimiza os trechos mais carregados, com alimentação dos itinerários locais e possibilitando a construção de uma rede integrada com inúmeras alternativas de deslocamentos através dos terminais de transbordo. Tal racionalização resulta em economia de frota e de custos operacionais — este, aspecto básico em tempos de altos subsídios.

O conceito BRT em Curitiba está intimamente vinculado ao uso solo, induzindo uma macroestruturação onde já se consolida “vida e trabalho juntos”, com eixos contínuos de uso misto, fachadas ativas e mais de vinte terminais de integração que fortalecem subcentros, orientam a distribuição de equipamentos comunitários e reduzem os fluxos radiais ao centro. Adiando ou até prescindindo a necessidade de modais sobre trilhos. A rede ainda reserva especial atenção às linhas alimentadoras, interbairros e outras que convivem com o tráfego normal, com renovação paulatina de frota e implantação de faixas dedicadas onde possível.

Estive recentemente em Bogotá e, com meus modestos olhos críticos, decreto: o TransMilenio é uma notável conquista, uma decisão corajosa confrontando os lobbies do metrô. Ele teve uma implantação em fração de tempo, mais de uma centena de quilômetros de vias exclusivas espremendo muitas faixas do transporte individual, ônibus articulados com portas duplas, serviços paradores e expressos, terminais de integração de qualidade, velocidade média muito acima do trânsito nas laterais e carregamentos superiores a muitas redes de metrô. Depoimentos locais recordam o caos total anterior, com frotas precárias disputando passageiro e espaço no trânsito caótico… 

Sim, o TransMilenio tem problemas, com saturação e desgastes que acontecem com qualquer modal onde a manutenção, reposição e inovação não evoluem na medida correta, e geralmente por falta de prioridade dos gestores. Mas tais melhorias são economicamente viáveis e suportáveis. Assistimos na outra ponta, por exemplo, a degradação da rede de trens do Rio de Janeiro, que exige manutenção caríssima e subsídios infindáveis, uma “bola de neve” que sangra os orçamentos públicos.

Lerner dizia que “Curitiba não é um paraíso” — pelo contrário, tem muito a fazer — mas tem sólidos fundamentos para construção de uma cidade sustentável. E, importantíssimo, aquelas escolhas permitiram equilibrar continuamente robustos orçamentos aos sistemas de educação, saúde e atenção à criança, ao saneamento básico e aos parques-esponjas, à arte, memória e cultura. Hoje a cidade apresenta diversos indicadores socioeconômicos independentes que confirmam a pertinência de uma visão integrada e integrativa, de custos acessíveis e de inegável abrangência territorial.

Arq. Paulo Kawahara, sócio-fundador do Instituto Jaime Lerner

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Com base na experiência de Jaime Lerner e das equipes que com ele trabalharam, o Instituto Jaime Lerner almeja despertar uma consciência positiva sobre o potencial transformador das cidades e seu desenvolvimento sustentável, inclusivo e criativo. ([email protected])
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