No olho da rua da amargura

31 de março de 2026

Um grande amigo costuma dizer que, se o Natal é tempo de renovar a esperança, as festas natalinas não deixam de ser uma oportunidade ótima para revigorar a desesperança.

Pois lembrei da frase dele enquanto, depois de um enorme congestionamento na Rodovia Castelo Branco, aguardava há pelo menos 20min em uma fila de automóveis na portaria do mais famoso condomínio horizontal da região metropolitana de São Paulo, onde celebraria com familiares a noite de Natal.

Enfim na festa, papo vai, papo vem, fiz a besteira de criticar a lógica desses condomínios, argumentando que, ao se preocuparem apenas com a própria segurança, acabam prejudicando o entorno, agravando congestionamentos, tornando a vizinhança pouco atrativa e insegura.

Para tentar explicar meu ponto aos ouvintes, recorri, é claro, à famosa (entre urbanistas…) expressão de Jane Jacobs. No que falei dos “olhos da rua”, uma tia fofoqueira que passava por ali logo se meteu na conversa. “Quem foi demitido?”.

“Demitido? Como assim, tia?”, perguntei, sem entender exatamente do que ela estava falando. “Você não falou em olho da rua? Então, quem foi parar no olho da rua? Eu conheço?”, ela esclareceu, ansiosa para chafurdar na desgraça alheia.

Tão acostumado ao aspecto positivo relacionado à vigilância natural dos “olhos da rua”, a intromissão da minha tia fez com que eu me desse conta de que o “olho da rua”, vejam só, também pode ter uma conotação negativa. Curioso, pesquisei rapidamente no celular a origem da expressão.

Sem qualquer critério científico, cheguei ao portal português SAPO. De acordo com o sítio, a expressão teria surgido na época em que as casas portuguesas tinham um espaço chamado “olho da rua”, onde terminava a propriedade privada e começava o espaço público. Ser mandado para o “olho da rua” era, portanto, ser colocado fora da segurança do lar.

Conceber a rua (perigosa, ameaçadora) em oposição ao lar (ou ao condomínio) se mostra, de fato, bastante alinhado à forma como temos construído nossas cidades (ao menos no Brasil, já que em Portugal, onde teria surgido a expressão “ir para o olho da rua”, as ruas em geral me parecem muito mais agradáveis e atrativas do que as nossas).

Foi exatamente o que comentei na festa: nas férias, adoramos caminhar pelas ruas em cidades como Porto ou Lisboa, mas aqui nos enclausuramos em condomínios e não abrimos mão do automóvel.

É claro que o debate descambou para o aparentemente incontornável problema da falta de segurança, para o qual foram atribuídas inúmeras causas, da incompetência dos políticos à ineficiência do judiciário, do fortalecimento do crime organizado à suposta malandragem do povo brasileiro. Espaços públicos vazios, todos estavam convencidos, seriam meras consequências, jamais causas da insegurança urbana.

Quando me preparava mais uma vez para contra-argumentar, fomos todos interrompidos pelo desabafo de uma tia que acabava de entrar. “Que Via Crucis chegar até aqui, a Castelo está parada, depois essa maldita portaria, ter que esperar quase meia hora na fila para fazer a porcaria de um cadastro em plena noite de Natal! Tudo isso é medo dessa velha senhora?”.

“Essa aí, coitada, está na rua da amargura”, ouvi a tia fofoqueira cochichar ironicamente para alguém.

“Não só ela, tia. Não só ela”, pensei comigo. Ruas da amargura, afinal, é o que mais vemos nessas nossas tristes cidades dominadas por carros, muros, shoppings e condomínios fechados…

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Economista pela FEA-USP, mestre em economia pela EESP-FGV e tem mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas e estudos econômicos. Mora em São Paulo e caminhar pela cidade é um de seus hobbies favoritos ([email protected]).
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