NIMBYsmo: pimenta nos olhos dos outros não arde, diz o ditado

7 de maio de 2026

Se existe uma característica humana presente em qualquer cidade do planeta, e comum a todas as culturas, é o “NIMBYsmo”, uma definição criada a partir do acrônimo NIMBY, ou Not In My Back Yard.

Em bom português, numa tradução literal, significa “não no meu quintal”. Numa compreensão mais ampla, descreve alguém que apoia usos mistos, moradores de classes sociais distintas no mesmo prédio, maior densidade, maior verticalidade, casas de repouso, hotéis e moradias sociais em todos os bairros, exceto no seu. Em todas as quadras, exceto na sua. Em todos os prédios, exceto no seu.

Quer dizer “vamos abraçar as diferenças, acolher os necessitados, compartilhar os parques, praças e a melhor infraestrutura, mas não aqui no meu bairro: quem sabe no seu?”.

No Village, bairro de altíssimo padrão da cidade de Nova York — uma vez boêmio e reduto de pensadores que ousaram desafiar a prefeitura contra a construção de viadutos e vias expressas pela cidade —, hoje protestam (na verdade, processam a prefeitura) contra a instalação de um abrigo para 250 pessoas em situação de rua em seu bairro, alegando não ser o local adequado, e preocupados com os impactos na desvalorização dos imóveis.

Então ficamos assim: a população do Village apoia a construção ampla de abrigos para pessoas em situação de rua, desde que não em seu bairro. A medida parece justa e o serviço municipal necessário, desde que em outras paragens, o mais distantes possível do Village, acredito.

O mais risível de toda essa situação reside no fato de que a cidade de Nova York elegeu, outro dia mesmo, um político cujo currículo é causa de preocupação até em seus apoiadores, segundo uma matéria do The New York Times de novembro de 2025. Para um político de 34 anos que jamais gerenciou uma equipe de mais de 5 pessoas (sua assessoria parlamentar), administrar Nova York, uma cidade que contava, em 2024, com 306.248 funcionários, pode ser um desafio hercúleo, senão impossível.

A dúvida vem do currículo magro, mas também de uma campanha inflamada, marcada por promessas difíceis de serem levadas a cabo, como congelamento dos aluguéis, desapropriação de prédios para moradia social (detalhe: prédio ocupados), taxação extra em segundas residências de alto valor.

Provando que a lógica sempre impera, os discursos e a retórica ainda não produziram nada além de muito ruído e, recentemente, empreendimentos cancelados (como por exemplo o da nova sede da — gigante — Citadel).

E ainda assim — provando que até um relógio quebrado acerta a hora 2 vezes ao dia —, o prefeito fez certo ao pretender implantar um abrigo para pessoas em situação de rua no Village. Afinal, a vida é feita de parques, fachadas ativas, moradias de todos os tamanhos e para todos os bolsos, mas também de escolas, clínicas e equipamentos sociais, como por exemplo os abrigos.

E assim, o Village de Jane Jacobs, outrora o bastião de resistência contra os viadutos e expressways de Robert Moses, se revela num lamentável episódio de “aqui não” e “não no meu quintal”, provando que não há movimento antissistema que não se converta, com o tempo, no mais ardoroso defensor do sistema e dos privilégios.

No momento em que os protestos do Village se aproximam de completar 70 anos, o que será que Jane Jacobs diria sobre esse surto de NIMBYsmo?

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteto e Urbanista, sócio da incorporadora CASAMIRADOR e fundador do INSTITUTO CALÇADA. Acredita que as cidades são a coisa mais inteligente que a humanidade já criou. ([email protected])
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