Não ter parque custa mais do que construí-lo

29 de outubro de 2026

Nas contas públicas, parques costumam ser vistos como despesa. Saúde, drenagem e infraestrutura são tratadas como necessidades; áreas verdes, como algo desejável quando sobra dinheiro. Mas essa hierarquia talvez esteja invertida.

O relatório The Undeniable ROI of Community Parks and Green Spaces, publicado em 2026 pela Trust for Public Land, analisou estudos econômicos de 11 grandes cidades americanas. A conclusão é que, para cada dólar investido anualmente em parques e recreação — incluindo implantação e operação —, as comunidades recebem pelo menos três dólares em benefícios econômicos.

Esse retorno não vem apenas da valorização dos imóveis. Ele aparece na redução dos gastos com saúde, porque parques estimulam a atividade física; na drenagem das águas pluviais, porque solos permeáveis diminuem o volume lançado nas redes; na oferta gratuita de lazer; no aumento da arrecadação gerado pela valorização imobiliária; e na capacidade de atrair recursos privados e filantrópicos.

É uma estimativa conservadora. O cálculo não incorpora integralmente benefícios mais difíceis de medir, como saúde mental, redução das ilhas de calor, biodiversidade, convivência entre diferentes grupos sociais e fortalecimento dos vínculos comunitários. Ou seja, o retorno real pode ser ainda maior.

Parques funcionam como uma infraestrutura que entrega vários serviços ao mesmo tempo. Uma praça arborizada pode ser área de lazer, equipamento de saúde preventiva, sistema de drenagem, refúgio climático e ponto de encontro. Poucas obras públicas conseguem combinar tantas funções em um único espaço.

O relatório também mostra que não basta reservar uma área verde no mapa. O valor depende de acesso, qualidade, manutenção, segurança e programação. Um parque abandonado não entrega o mesmo retorno que um espaço vivo, integrado ao bairro e utilizado diariamente. Construir é apenas a primeira etapa; operar bem é o que transforma área verde em infraestrutura urbana.

Embora os números tenham sido calculados para cidades americanas, a lógica é especialmente relevante para o Brasil. Aqui, parques ainda são frequentemente tratados como elementos decorativos ou como terrenos disponíveis para receber outras funções. Ao mesmo tempo, gastamos para enfrentar enchentes, doenças associadas ao sedentarismo, calor extremo e degradação urbana — problemas que áreas verdes bem planejadas poderiam ajudar a prevenir.

Essa inversão também afeta o desenvolvimento imobiliário. Empreendimentos se apropriam comercialmente da proximidade com a natureza, mas raramente participam de forma estruturada da implantação e da manutenção dos espaços públicos que sustentam essa valorização. Incorporadores capturam parte do valor e o poder público assume quase todo o custo.

Precisamos deixar de perguntar apenas quanto custa construir um parque. A pergunta correta é: quanto custa não construí-lo?

O custo está na água que alaga as ruas, na população que adoece, no imóvel que perde valor, no bairro que deixa de atrair moradores e negócios e na cidade que oferece cada vez menos lugares para o encontro.

Parques não são o prêmio que uma cidade recebe depois de resolver seus problemas. São parte da infraestrutura necessária para resolvê-los.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta e urbanista, especialista em Gestão de Projetos e mestre em arquitetura pela UFRN. Atualmente é sócia da PSA Arquitetura em São Paulo (www.psa.arq.be) e da PROA Brasil (www.proabrasil.com), em Natal-RN.
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