Na polêmica dos designers de carros projetando edifícios, quem perde são as cidades

21 de janeiro de 2026

Na atual polêmica em torno de designers de automóveis projetando edifícios, o maior prejuízo não recai apenas sobre a arquitetura ou sobre a profissão do arquiteto, mas incide sobretudo nas cidades. Quando a lógica do design de produtos — voltada à forma icônica, à sedução visual e ao objeto isolado — é transposta de maneira acrítica para a arquitetura, perde-se justamente aquilo que dá sentido ao edifício: sua relação com o entorno, com o espaço público, com a história e com a vida urbana. Algo que os designers não conseguem alcançar.

Edifícios não são objetos autônomos expostos em vitrines. Eles interferem diretamente na paisagem, no clima urbano, na mobilidade, na infraestrutura e nas dinâmicas sociais. Ao ignorar essas dimensões, projetos concebidos a partir de uma lógica formalista tendem a produzir arquiteturas espetaculares, porém indiferentes à cidade, funcionando mais como peças de marketing imobiliário do que como componentes qualificados do tecido urbano. O resultado recorrente é a fragmentação da paisagem, a banalização do espaço público e a homogeneização visual dos lugares.

É evidente que a arquitetura icônica, produzida por arquitetos renomados, pode ter papel relevante e positivo nas cidades. Exemplos como o Museu Guggenheim de Frank Gehry, em Bilbao, ou obras de Santiago Calatrava em diversas cidades mostram como edifícios excepcionais podem se tornar marcos urbanos. No entanto, é difícil imaginar cidades em que, a cada terreno ou esquina, nos deparamos com obras desse porte. A exceção não pode se tornar a regra.

Em cidades bem-sucedidas do ponto de vista urbano, a maior parte dos edifícios é quase “invisível”, no sentido de que cumpre seu papel de estruturar a forma urbana, definir alinhamentos, qualificar o espaço público e permitir que a vida cotidiana aconteça. Barcelona, Paris e mesmo bairros consolidados como Copacabana exemplificam essa lógica: não é o edifício isolado que garante a qualidade urbana, mas a relação entre edifício e espaço público, a continuidade das fachadas, os usos no térreo e a diversidade de funções que dão vitalidade às ruas.

No contexto brasileiro, especialmente em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, essa discussão torna-se ainda mais sensível. A importação acrítica de modelos espetaculares, muitas vezes associados a marcas globais ou a designers oriundos de outras áreas, tende a reforçar processos de valorização imobiliária excludente, resultando em uma arquitetura duvidosa e na produção de edifícios desconectados das reais demandas urbanas, sociais e ambientais. Em vez de contribuir para a cidade, esses projetos atendem apenas a uma necessidade mercadológica imediatista dos incorporadores e se apoiam na falta de conhecimento da sociedade sobre arquitetura e urbanismo. Esse fenômeno pôde ser observado no boom de edifícios neoclássicos no final do século 20.

Mais do que discutir quem pode ou não projetar edifícios, o debate central deve se concentrar na responsabilidade urbana. A arquitetura vai além da forma: é um instrumento de mediação entre interesses privados e o bem coletivo, entre o lote e a cidade, entre o presente e o futuro. A qualidade da arquitetura, portanto, deve se refletir em benefícios para a sociedade como um todo. Quando esse compromisso é substituído pela busca do impacto visual imediato, o prejuízo não recai apenas sobre a disciplina arquitetônica, mas sobretudo sobre as cidades e aqueles que nelas vivem.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteto pela Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ (1991), é Mestre em Arquitetura (2010) e Doutor em Arquitetura (2014) pelo PROARQ da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ. É professor da Universidade Veiga de Almeida e do Mestrado Profissional no Programa de Pós-graduação em Projeto e Patrimônio da UFRJ. Sócio do escritório DCArquitetura e consultor de Planejamento Urbano. Autor de quatro livros sobre as transformações urbanas da cidade do Rio de Janeiro.
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