Mulheres não experimentam um espaço público da mesma forma que os homens

16 de janeiro de 2026

É desanimador precisar ver homens como obstáculos

“Você não vai vir por aqui?”, perguntou minha filha Geórgia, apontando para a calçada, quando tínhamos acabado de atravessar a rua. “Não. Vamos por aqui”, respondi, seguindo na pista, atrás dos carros estacionados. Ela olhou para a calçada que eu estava evitando e disse baixinho, ao constatar minhas razões: “Ah, está cheia de ‘obstáculos’…” Nela, havia dois homens trabalhando num carro e um outro, parado, acompanhando-nos com o olhar. Não era um olhar desinteressado ou apenas curioso. Era um olhar atento. Não gostei.

Me senti ameaçada? Na verdade, não. Eu poderia ter passado ao lado dele se eu quisesse, mas não quis. Aquele olhar me desmotivou, e eu não me animei a bancar um possível desconforto. Usei meu poder da esquivança e fiz outro trajeto. Preferi caminhar junto aos carros a passar por uma situação desagradável. Escolhi minha batalha.

Nós, mulheres, estamos acostumadíssimas a fazer isso. Ficar alertas, mudar de rota, evitar lugares, não nos demorar, apertar o passo, parar de sorrir. Tudo por causa de alguma presença masculina incômoda, isolada ou em grupo. É uma pena. Mais do que tudo, é injusto: historicamente, mulheres não experimentam um espaço público da mesma forma que os homens.

Em avaliações de pós-ocupação, consideramos que um espaço público é bem-sucedido quando ele tem “gente, gente variada e gente sempre”, e nos levantamentos de atividades estacionárias observamos atentamente a proporção de mulheres, sua distribuição, o fato de elas estarem sozinhas ou não, a duração de sua permanência e mesmo sua linguagem corporal.

Se encontramos uma porcentagem alta de mulheres, bom sinal. Se elas estiverem bem distribuídas por todo o local, melhor ainda. Se além de tudo elas ficarem sozinhas numa boa, por um bom tempo, esse lugar realmente é um destino agradável e seguro. Cabe estudar seu desenho para entender como ele contribui para essa situação tão favorável e aprender com seus atributos e relações.

Mas se, ao contrário, não encontramos nada disso, o estudo do desenho do lugar é ainda mais necessário, para descobrirmos se ele tem sua parcela de culpa (normalmente tem), e como podemos minimizá-la. Em linhas gerais, é um trabalho de eliminar barreiras e opacidades, de criar conexões, de oferecer atrativos, de favorecer a copresença e a cociência.

As mulheres da minha geração cansamos de receber olhares, ouvir gracinhas. E o pior é que tínhamos que achar que isso não era nada demais. Me lembro da raiva que sentia toda vez em que ia ao escritório do meu pai, no quarto andar de um prédio do centro de Brasília, quando eu tinha 15 anos e existiam ascensoristas. O homem do elevador sempre mexia comigo. Eu chegava reclamando, e meu pai calmamente dizia: “Mas ele está só te elogiando…” Eu me via num enorme conflito, me sentia invadida e invalidada, era péssimo. Subir de escada passou muitas vezes a ser minha alternativa.

As mulheres, hoje, entendem que isso não é aceitável. Muitos homens também. Percebo que algumas coisas mudaram da minha adolescência para cá, e que bom. É uma mudança que não tem a ver com a arquitetura, com o desenho dos lugares, mas sim com educação e mudança de cultura (sem descartar, talvez, o medo da punição). É um processo lento, mas desejável.

É desanimador ver homens como obstáculos – ao nosso direito de ir e vir, à nossa segurança, à nossa tranquilidade, à nossa prerrogativa de usar a cidade como bem entendermos. Seria maravilhoso não ter mais motivos para sustentar essa visão. Seria maravilhoso sermos todos iguais perante o espaço público.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta, professora da área de urbanismo da FAU/UnB. Adora levantamento de campo, espaços públicos e ver gente na rua. Mora em Brasília. ([email protected])
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