Mindfulness

16 de julho de 2026

Quem caminha pelo Centro de Belo Horizonte costuma andar com pressa, imerso, de forma automática. Quando se está dentro de um ônibus, a paisagem é apenas um pano de fundo barulhento na luta contra o relógio e o destino, muitas vezes imersos numa tela. Para o pedestre, o ruído dos carros e dos ônibus, o vaivém frenético nas calçadas sob o olhar atento do Pirulito da Praça Sete.

Mas experimente, por um instante, desacelerar o passo. Mude o ritmo e pratique o “mindful walking”, ou o caminhar consciente. Ao invés de andar freneticamente, apenas mirando o destino, preste atenção à paisagem, às pessoas com quem se cruza, e observe as árvores, os prédios, as lojas, os cafés e os restaurantes. Levante os olhos para a nossa paisagem urbana.

O Hipercentro deixa de ser um mero labirinto de asfalto e se revela um poderoso tônico para a nossa saúde mental.

Não se trata de romantismo; é ciência. Estudos de universidades como Stanford e do Journal of Environmental Psychology provam que caminhar sem pressa por ambientes que unem natureza e arquitetura histórica reduz a ansiedade. Contemplar uma fachada antiga ativa a “Teoria da Restauração da Atenção”. É a fascinação suave que dá descanso à mente saturada pelas telas digitais.

O Centro de BH é uma verdadeira geografia de memórias, ativando nosso sistema de recompensa do cérebro pela evocação de um outro tempo e pelos registros das experiências passadas de cada um de nós. Cruzar a amplitude da Praça da Estação, perder-se nos aromas e texturas do Mercado Central ou flanar pela Galeria Ouvidor são rituais de pertencimento.

Cruzar a Praça Sete, passar pelo Café Nice, sentir o cheiro do Kaol do Café Palhares ou observar o anoitecer no alto do P7 Criativo. Isso é acionar âncoras emocionais em lugares que guardam a biografia coletiva. Essa conexão funciona como um abraço urbanístico, devolvendo-nos o senso de identidade e de continuidade que a vida moderna ignora.

A grande novidade é que esse ecossistema mental e urbano vai ganhar um fôlego renovado. A nossa paisagem começa a desenhar sua renascença. A Lei do Retrofit (Lei nº 11.783/2024), que trouxe incentivos essenciais para a reabilitação de prédios antigos e subutilizados, será ampliada. O novo projeto de lei (574/2025) tornará a regeneração central ainda mais atrativa, destravando projetos, reativando fachadas ativas, amplificando o dinamismo, a luz e os sagrados “olhos da rua” citados por Jane Jacobs, tornando o caminhar muito mais seguro e prazeroso.

Um símbolo dessa virada já pode ser contemplado. A menos de um quarteirão da Praça Sete, as obras do icônico Edifício Maranhão estão a pleno vapor. Primeiro gigante da década de 1940 a ser totalmente licenciado sob a nova lógica de incentivos, ele deixa para trás sete décadas como um epicentro comercial para iniciar uma renovada vida residencial. Seu renascimento é a prova concreta de que o patrimônio histórico não é uma peça de museu, mas um organismo vivo capaz de acolher o futuro.

Ao reconectar o passado arquitetônico com a vitalidade das calçadas, o Hipercentro desenha seu destino mais nobre. À medida que os antigos gigantes de concreto se transformam e a legislação abre caminho para a vida urbana pulsar novamente, o Centro de Belo Horizonte reassume sua maior vocação: consolidar-se como o melhor endereço de moradia para uma nova geração que escolhe viver imersa na história e na alma de nossa cidade.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteto e Urbanista, sócio da incorporadora CASAMIRADOR e fundador do INSTITUTO CALÇADA. Acredita que as cidades são a coisa mais inteligente que a humanidade já criou. ([email protected])
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