Meu ódio por automotores começou cedo

6 de outubro de 2026

Mas não foi depois que tranquei os dedos na porta dum Opalão. Nem na porta do Passat velho do meu pai quando eu não tinha nem sete anos e saí do carro apressado na frente da escolinha onde estudava.

Para quem foi jovem entre os anos 1990 e os anos 2000, nem mesmo os Raimundos tocando “Eu quero ver o oco” eram capazes de frear o desejo de fazer logo dezoito anos para poder tirar a carteira de motorista e sair de carro por aí.

Meu ódio por automotores começou, porém, logo nos meus primeiros congestionamentos, quando pela primeira vez me dei conta da prisão que era estar dirigindo um automóvel numa via travada por uma frota de carros que parecia crescer exponencialmente.

Foi também quando me enxerguei no clássico “Motor Mania” do Walt Disney, animação a que assistira diversas vezes quando criança mostrando como o automóvel pode transformar as pessoas mais cordiais em monstros egoístas e narcisistas, para quem os problemas do trânsito são sempre do outro; para quem, no trânsito, os outros não importam, são malditos obstáculos.

Contudo, isso não evitou que eu continuasse utilizando o carro, todo dia me transformando no Pateta Sr. Volante tanto na ida quanto na volta do trabalho. Por mais irônico que pareça, foi um acidente de trânsito causado por um espirro que me “salvou” da dependência do automóvel. Estava parado há alguns segundos em um engarrafamento na Castelo Branco quando senti uma forte batida. Já saí do carro bufando até a janela do outro motorista, mas fui recebido por uma expressão de incompreensão. “Não consegui segurar o espirro e, quando vi seu carro parado, não deu mais tempo de frear”.

Por causa do acidente, meu carro teve que passar uns dias na oficina e fui obrigado a recorrer ao transporte público para trabalhar. Se nos primeiros dias reclamei de ter de acordar mais cedo, pouco tempo depois já começava a me dar conta das vantagens de não precisar dirigir.

Afinal, por mais que pudesse me distrair com músicas ou algum pensamento aleatório no caminho, no carro tinha sempre todas as atenções voltadas para o trânsito, torcendo apenas para chegar o mais rapidamente possível ao meu destino. No transporte público, o caminho ao trabalho deixou de ser somente um simples deslocamento, um mal necessário, já que aquele tempo livre do volante me permitia fazer coisas de que gosto como ler ou contemplar melhor a cidade, algo impossível quando se está preso a um automóvel, atento ao trânsito.

Mas e depois disso, meu ódio por automotores diminuiu? Nem um pouco. Continuava tendo hora para chegar ao trabalho e ficava indignado ao me ver num ônibus com dezenas de outros passageiros tendo de disputar o espaço congestionado com automóveis quase sempre carregando uma única pessoa. Ao descer no ponto, precisava atravessar vias e caminhar até o trabalho. Não foram poucas as vezes em que automóveis aceleraram assim que me viram colocar um pé na avenida. Ao visitar meus pais na casa em que vivi na minha infância e juventude, percebi que aquela rua onde costumava jogar futebol e descer de carrinho de rolimã tinha virado um simples local de passagem e estacionamento de automóveis. As crianças tinham desaparecido.

Se “o brasileiro é apaixonado por carro”, meu ódio por automotores só cresceu à medida que eu estudava mais sobre o tema e descobria que eles não apenas redesenharam nossas cidades, transformando-as em lugares mais hostis, como também são os principais emissores de poluentes. Sem dizer que os acidentes de transporte, em grande parte causados por carros, representam a principal causa externa de morte no Brasil (apenas em São Paulo, morreram 1.034 pessoas no trânsito em 2025, sendo que o segmento que mais cresceu foi o de pedestres, com 410 mortes, o maior número em dez anos).

É normal ouvirmos que falta amor em SP. E talvez seja mesmo verdade. O que não impede que falte também um pouco mais de ódio – ódio aos automotores, no caso.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Economista pela FEA-USP, mestre em economia pela EESP-FGV e tem mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas e estudos econômicos. Mora em São Paulo e caminhar pela cidade é um de seus hobbies favoritos ([email protected]).
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