Muito se fala ultimamente sobre fachadas ativas, conceito que normalmente está associado a edifícios implantados próximos ao alinhamento do lote e que estabelecem uma relação mais direta com a rua. Abordei esse tema em minha coluna de dezembro passado. Em muitos municípios, entretanto, a fachada ativa é entendida quase exclusivamente como a existência de lojas no pavimento térreo. Essa interpretação, embora comum, está longe de representar toda a sua essência. Uma fachada ativa não depende necessariamente do uso comercial, mas da capacidade de promover interação entre o edifício e o espaço público.
Gostaria, porém, de trazer à discussão um elemento que parece ter sido um pouco esquecido e que, quando bem utilizado, contribui de forma significativa para a vitalidade urbana. Refiro-me ao pilotis.
Em 1951, no Rio de Janeiro, sob forte influência do Movimento Moderno, foi aprovado um decreto que estabelecia, em um de seus artigos, que: “Acima do último pavimento, além das casas de máquinas dos elevadores e dos reservatórios d’água, será permitida, para composição arquitetônica, a formação de compartimentos destinados à habitação, desde que o total da área construída não exceda 20% da área do pavimento situado imediatamente abaixo”. O mesmo decreto também introduziu a possibilidade de utilização do pilotis no pavimento térreo, destinado ao estacionamento e ao apartamento do porteiro, fazendo com que as unidades residenciais deixassem de ocupar o nível da rua. Inicialmente restritos a alguns logradouros, esses dispositivos foram posteriormente estendidos a todas as edificações do Distrito Federal.
O pilotis concebido pelos modernistas proporcionava algo que, por diversas razões, deixamos de construir nas cidades brasileiras: uma transição natural entre o espaço público e o espaço privado, praticamente sem barreiras físicas. Não havia muros altos, grades, guaritas ou qualquer outro elemento que marcasse de forma rígida essa passagem. O edifício dialogava com a cidade, permitindo que o pedestre percebesse continuidade, transparência e integração.
Na década de 1970, diversos edifícios de Copacabana foram construídos dessa forma. Seus térreos permaneciam abertos e integrados à calçada. Lembro-me de que, ainda criança, entrava e saía desses espaços sem sequer perceber que estava atravessando uma propriedade privada. Na época, aquilo me parecia absolutamente natural. Somente muitos anos depois compreendi que aquela sensação de continuidade entre cidade e edifício praticamente desapareceria das novas construções.
Infelizmente, a crescente preocupação com a segurança levou ao fechamento desses espaços. Grades foram instaladas, pilotis foram cercados e a cidade perdeu parte dessa relação espontânea entre arquitetura e espaço urbano. Em muitos casos, o que antes era uma área de convivência transformou-se em um vazio inacessível, isolado do cotidiano das ruas.
Ainda assim, alguns projetos contemporâneos mostram que essa qualidade urbana continua sendo possível. Em São Paulo, o Instituto Moreira Salles, projetado pelo escritório Andrade Morettin Arquitetos Associados, oferece um belo exemplo dessa integração. Seu térreo livre cria uma agradável sensação de continuidade entre a cidade e o edifício. No Rio de Janeiro, essa mesma experiência pode ser vivida no edifício do Ministério da Educação e Saúde, projetado em 1937 por Lucio Costa e sua equipe, recentemente reaberto após doze anos de restauração. Caminhar por seu pilotis continua sendo uma das melhores demonstrações de como a arquitetura pode qualificar o espaço público.
Talvez seja o momento de voltarmos a discutir o papel do pilotis na construção das cidades contemporâneas. Evidentemente, não se trata de ignorar as questões de segurança, mas de buscar soluções que conciliem proteção e integração urbana. Afinal, cidades mais acolhedoras são aquelas que oferecem espaços de transição, de permanência e de convivência, e não apenas barreiras.
Pelo bem das cidades e do urbanismo, deveríamos ter menos grades e mais pilotis.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.