Medo que dá medo do medo que dá

25 de agosto de 2026

Assim como boa parte da população, também fiquei em casa por um longo período durante a pandemia. Praticamente não saía, quando muito para ir ao supermercado, à farmácia ou para uma breve volta pelo bairro.

Logo que as coisas começaram mais ou menos a voltar ao normal, precisei ir até o Terminal Lapa para adquirir um novo Bilhete Único, o cartão de transporte da cidade de São Paulo (e não me perguntem por que era preciso ir presencialmente e, ainda por cima, pagar com dinheiro vivo; só sei que era assim).

Desde muito jovem, estou acostumado a usar o transporte público e frequentar terminais de ônibus e estações do trem da CPTM. Mas, depois de meses enclausurado, nunca aquele cenário tinha me parecido tão assustador.

Confinado em casa, assistia todos os dias a notícias sobre uma crescente onda de furtos de celulares, roubo de dados financeiros, golpes digitais. Na fila do Terminal, repleto de população de rua, de repente todos me pareceram ladrões em potencial.

Foi quando me dei conta do efeito nocivo de viver enclausurado em uma bolha, e da importância de conviver com a diversidade.

Corta agora para uma cena recente. Retomo o contato com um amigo de infância que não via há muito tempo. Estudamos juntos no Ensino Médio em Osasco. Hoje ele mora em um condomínio fechado no Alphaville (onde vão morar os osasquenses que “deram certo na vida”, costumo brincar).

Marcamos de sair, colocar o papo em dia. Sugiro um bar no Centro de São Paulo, um passeio pela Galeria do Rock, a qual costumávamos ir depois da escola. “Em homenagem aos velhos tempos”. Ele hesita. “Sei não, meio perigoso o Centro, não acha?”. Explico que trabalho lá, frequento a região todos os dias há dois anos e não presenciei mais do que pequenos furtos, assim como acontece em qualquer outro bairro da cidade. “Não é o que vejo no jornal. Cracolândia, gangue da bike, bandido quebrando janela de carro travado no trânsito para roubar celular”. “Qual a última vez que você foi ao Centro?”, perguntei então. Ele não soube responder com precisão, “talvez quando ainda íamos à Galeria do Rock depois da escola…”.

Decidimos então ir a um bar na Pompeia mesmo, perto de casa. Chegando lá, sugeri uma mesa na calçada, mas, por insegurança, ele preferiu uma dentro do bar, apesar de o entorno estar lotado, cheio de gente passeando, inclusive com cachorros e carrinhos de bebê. Mencionou um vídeo que recebeu em um grupo de WhatsApp mostrando um arrastão em um restaurante de Pinheiros, bairro próximo. Não soube dizer de quando era o vídeo, mas parece que tinha sido na semana passada, ele achava…

A ótima canção do Lenine cujo verso dá título a este artigo fala exatamente de como o medo pode se tornar um ciclo sem fim, alimentando-se de si mesmo. No caso particular das cidades, conforme já discuti em outros artigos, o medo excessivo pode gerar reações não apenas ineficazes no combate à violência, mas também respostas que tornam as cidades ainda mais inseguras, retroalimentando o medo.

Muros altos, por exemplo, acabam com a vitalidade das calçadas, aumentam a sensação de insegurança no entorno e podem ser prejudicais ao próprio condomínio, já que impedem quem está na rua de enxergar o que se passa lá dentro. Muita gente enclausurada em shoppings, por sua vez, é um dos fatores por trás do declínio do comércio de rua e, consequentemente, do esvaziamento das ruas – que, com isso, se tornam mais inseguras.

Sem dúvida a violência é dos problemas mais graves das cidades brasileiras. Contudo, quanto mais buscarmos proteção em condomínios fechados e shoppings, quanto mais nos refugiarmos em bolhas de segurança, mais ameaçadora as cidades vão parecer, independentemente de dados e fatos. E em uma espécie de profecia autorrealizável, quanto mais abandonarmos as ruas e os espaços públicos, mais perigosos e atemorizantes eles tendem a se tornar.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Economista pela FEA-USP, mestre em economia pela EESP-FGV e tem mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas e estudos econômicos. Mora em São Paulo e caminhar pela cidade é um de seus hobbies favoritos ([email protected]).
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