Medical Tourism no Brasil — entre competência médica e potencial estratégico

18 de março de 2026

O “medical tourism“, ou turismo médico, descreve o deslocamento de pessoas para outros países em busca de tratamentos de saúde mais acessíveis, rápidos ou especializados. Trata-se de um mercado em expansão global, impulsionado pela desigualdade de custos entre sistemas de saúde, pela mobilidade internacional e pela consolidação de polos médicos de excelência. Nesse cenário, o Brasil desponta como um destino relevante — ainda subexplorado do ponto de vista estratégico.

Dados de mercado indicam que o Brasil recebe entre 180 mil e 300 mil turistas médicos por ano, atraídos principalmente por cirurgias plásticas, odontologia, procedimentos estéticos e bariátricos. Estimativas apontam que o setor movimentou cerca de US$ 3,7 bilhões em 2025, com projeções que superam US$ 16 bilhões até 2034, segundo relatórios da IMARC Group e análises internacionais do setor.

A atratividade brasileira combina alguns fatores difíceis de replicar: corpo clínico altamente qualificado, reconhecimento internacional em especialidades como cirurgia plástica, infraestrutura hospitalar de bom nível em grandes centros e custos significativamente inferiores aos praticados em países como Estados Unidos e Europa Ocidental. A isso soma-se um ativo intangível: a possibilidade de associar tratamento médico a experiências turísticas, culturais e de bem-estar.

Apesar do potencial, o turismo médico no Brasil ainda enfrenta entraves. Barreiras regulatórias, falta de políticas coordenadas de promoção internacional, dificuldades logísticas e uma percepção externa sobre segurança e padronização limitam sua escala. Países como Índia, Tailândia e México avançaram justamente ao tratar o tema como estratégia nacional, integrando saúde, turismo e desenvolvimento econômico.

Do ponto de vista urbano, o turismo médico oferece uma oportunidade interessante. Hospitais de excelência tendem a gerar ecossistemas: hotéis, serviços, residências temporárias, mobilidade e economia local qualificada. Cidades como São Paulo já operam como hubs de saúde na América Latina, mas poderiam avançar ainda mais se o setor fosse pensado de forma estruturada, como parte de uma política urbana e econômica.

O turismo médico não é apenas uma agenda de saúde ou de turismo. É uma discussão sobre posicionamento internacional, uso inteligente de ativos existentes e capacidade de transformar excelência técnica em desenvolvimento urbano sustentável. O Brasil tem os ingredientes. Falta decidir se quer ocupar esse espaço de forma estratégica.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta e urbanista, especialista em Gestão de Projetos e mestre em arquitetura pela UFRN. Atualmente é sócia da PSA Arquitetura em São Paulo (www.psa.arq.be) e da PROA Brasil (www.proabrasil.com), em Natal-RN.
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