O VU Summit 2026 estava previsto para Riade e Dubai. A instabilidade no Oriente Médio levou o Council on Vertical Urbanism (CVU) a transferi-lo para Londres. A escolha combinou com o tema Density and Identity: Shaping Skylines, Elevating Culture. Poucas cidades convivem de modo tão evidente com a preservação da paisagem histórica e a construção de edifícios altos.
Foi um prazer voltar a Londres, dois anos depois de apresentar as simulações de desempenho urbano da minha tese. Desta vez, representei a Talls Solutions e o CVU Brazil Chapter.
Nos painéis e workshop do evento, com representantes de Vancouver, Kuala Lumpur, Londres e Singapura, apresentei os padrões da verticalização brasileira. Uma palavra tão natural que envolve mercado, regras urbanísticas, infraestrutura e a distribuição de edificações pelo território. Sobre São Paulo, mostrei como padrões concentrados, dispersos e lineares moldaram a cidade. Pelas perguntas após a apresentação, percebi como nosso modelo, marcado por decisões lote a lote, surpreende quem conhece outras formas de planejar. Um dos debates foi por Lay Bee Yap, da Urban Redevelopment Authority de Singapura.
Kuala Lumpur mostrou como as Petronas e o Merdeka 118 são tratados como marcos da paisagem, inclusive com visadas protegidas. Vancouver está revendo sua política de edifícios altos, discutindo com a comunidade onde permitir novas alturas sem abandonar as vistas para as montanhas. Em julho, aprovou o rezoneamento para um arranha-céu de 315m, que poderá ser o mais alto da cidade.
Londres apresentou o caso mais provocado. O cluster da City segue em expansão, como novas obras e demanda por escritórios. O City Plan 2040 também propõe um segundo agrupamento, respeitando vistas históricas, sobretudo para a Catedral de St. Paul e a Torre de Londres. No tour pela City, Gwyn Richards e Tom Nancollas, da City of London Corporation, fizeram uma observação certeira. Ali, as edificações não são pensadas de cima para baixo, como volumes que pousam sobre um lote. Elas emergem do desenho das ruas, das quadras e dos terrenos, moldados pelo traçado medieval. Daí a forma esculpida de tantos edifícios. Não simplesmente distribuir potencial construtivo. É desenhar onde e como a demanda pode caber na cidade.
A KPF também apresentou o KPF Urban Interface, núcleo de pesquisa computacional que testa milhares de volumetrias segundo critérios como luz natural, vistas e circulação. A forma é orientada pelo desempenho do lugar.
Na premiação, o melhor edifício alto do mundo de 2026 foi o Sany IROOTECH Headquarters, em Guangzhou, do SOM. Suas duas torres são ligadas por um embasamento elevado que libera uma praça pública no térreo. A estrutura externa permite plantas flexíveis. Solução estrutural, arquitetura e contribuição urbana pesaram na escolha.
Entre os premiados, destaque também para o primeiro edifício brasileiro a levar um prêmio do CVU. O EZ Parque da Cidade, em São Paulo, da Eztec, com arquitetura da UNStudio. O conjunto de duas torres residenciais, integrado com o complexo de uso misto do Parque da Cidade, venceu a categoria de melhor edifício alto entre 100 e 199 metros.
Estou voltando de Londres com aquele pensamento de contraste com o Brasil. No nosso país, a discussão segue centrada no potencial construtivo de cada lote. O desenho urbano fica discutido apenas em bairros planejados, fora da cidade consolidada. Na City, começa pela demanda, pelo traçado das ruas, pelas vistas protegidas e pela forma urbana que se quer produzir. É uma diferença de planejamento que aparece, no fim, no próprio skyline.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.